3

É usual se afirmar que scanf não é uma função segura. Clang e GCC não emitem qualquer aviso, porém MSVC nem sequer compila (a menos que se inclua _CRT_SECURE_NO_WARNINGS):

Error C4996 'scanf': This function or variable may be unsafe.

  • Isso significa que em alguns casos scanf pode ser usado com segurança e em outros não?
  • Em caso afirmativo, quais são esses casos?

Outra função também para leitura de dados é gets.

  • Há casos em que gets pode ser usado com segurança ou deve ser evitado completamente?

Sugere-se usualmente como alternativa a scanf e a gets o uso de fgets.

  • De que forma fgets é mais seguro?
0

1 Resposta 1

4

Funções scanf e gets para processamento de strings

A função scanf é segura para processamento de strings. Isso porque há um campo específico para delimitar o comprimento da string a ser armazenada. Isso é mostrado no exemplo a seguir.

// Exemplo 01   
#include <stdio.h>
#define SIZE 7

int main(void)
{
    char cidade[SIZE];
    printf("Insira o nome da sua cidade: ");    // Brasilia
    scanf("%6s", cidade);
    printf("A cidade e: %s", cidade);           // Brasil

    return 0;
}

/* ## Output ##
 * Insira o nome da sua cidade: Brasilia
 * A cidade e: Brasil
 */

Se o usuário inserir para o nome da cidade Brasilia, não irá ocorrer um overflow do buffer, uma vez que scanf irá se limitar a tentar armazenar em cidade apenas os 6 primeiros caracteres da string, conforme a instrução %6s (além de inserir ao final \0, que é o null character: referência). Por isso, quando o resultado é mostrado na tela aparece como nome da cidade Brasil.

O inconveniente é que o limite para o comprimento da string não pode ser inserido como argumento de modo direto, ao contrário de printf. Mais detalhes no Complemento.

O processamento de strings também pode ser realizado pela função gets. Entretanto, gets não apresenta qualquer campo delimitador e irá realizar a leitura até encontrar uma nova linha ou o fim do arquivo (EOF). Reescrevendo o exemplo anterior para gets:

// Exemplo 02   
#include <stdio.h>
#define SIZE 7

int main(void)
{
    char cidade[SIZE];
    printf("Insira o nome da sua cidade: ");    // Brasilia
    gets(cidade);
    printf("A cidade e: %s", cidade);           // ???

    return 0;
}

/* ## Possivel Output ##
 * Insira o nome da sua cidade: Brasilia
 * A cidade e: Brasilia
 */

Dessa forma, gets tenta armazenar em cidade a string completa, o que não é possível, afinal cidade não comporta uma string de 8 caracteres. No caso testado, gets invadiu os endereços de memória adjacentes para escrever a parte da string que não era possível armazenar em cidade, resultando em um overflow do buffer. Se for inserida uma string suficientemente longa, a tendência é que além de acontecer um overflow do buffer, ele também cause uma falha de segmentação (mais detalhes aqui e aqui). Buffer overflow é uma das principais vulnerabilidades exploradas por hackers e por isso deve se ter uma atenção especial a essa questão (vídeo: ataque via buffer overflow na prática. Texto: Buffer Overflow Exploit). Dessa forma, pela falta de um campo que delimite o comprimento da string a ser armazenada é impossível realizar a leitura de strings de modo seguro por gets (e a leitura de strings é a única função de gets). Por isso, gets nunca deve ser usado e foi removido completamente da linguagem a partir de C11.

Funções scanf e fgets para processamento de dados aritméticos

Além de strings, scanf também realiza a leitura de dados aritméticos (valores inteiros e de ponto flutuante). Entretanto, para esse caso, scanf não é seguro, não havendo garantia de proteção garantida contra comportamento indefinido. O código seguinte ilustra isso. Uma vez que a C standard especifica apenas o valor absoluto mínimo dos tipos inteiros, o valor de LONG_MIN e LONG_MAX dependem da implementação, porém obrigatoriamente LONG_MIN <= -2147483647 e LONG_MAX >= +2147483647).

// Exemplo 03    
#include <stdio.h>
#include <limits.h>
#include <errno.h>

#define SIZE 100

int main(void) {

    long a;
    char buffer[SIZE];

    printf("Digite o numero: ");            // 2147483648 (LONG_MAX + 1)
    int success = scanf("%ld", &a);
    printf("a = %ld", a);
    getchar();

    printf("\nDigite o numero: ");          // 2147483648
    fgets(buffer, SIZE, stdin);
    long b = strtol(buffer, NULL, 10);
    if (b == LONG_MAX && errno == ERANGE) {
        printf("b: Overflow!\n");
    }
    else if (b == LONG_MIN && errno == ERANGE) {
        printf("b: Underflow!\n");
    }       
    printf("b = %ld", b);       

    return 0;
}

/* ## Possivel Output ##
 * Digite o numero: 2147483648
 * a = -2147483648
 * Digite o numero: 2147483648
 * b: Overflow! 
 * b = 2147483647 
 */

O usuário entra com um número suficientemente grande de modo que o tipo long seja incapaz de armazenar (ler Observação). Scanf lê o número e retorna 1 (o retorno de scanf indica o número de valores atribuídos com sucesso). Entretanto, acontece overflow e de acordo com a C Standard o overflow de inteiros resulta em comportamento indefinido. No teste realizado com o exemplo, o que ocorreu foi a atribuição à variável a do valor -2147483648. Isso indica que houve o que se conhece como wraparound. Entretanto, scanf não permite testar a ocorrência de overflow de inteiros. A situação pode ser amenizada buscando impor um limite ao valor lido. Considerando um long em que LONG_MAX é +2147483647, é possível impor um limite escrevendo scanf("%9ld", number). Nota-se que um valor com 10 dígitos (%10ld) já abriria margem para overflow (+9 999 999 999 > +2 147 483 647). Entretanto, impondo-se o limite de 9 dígitos, o que acontece é que existe um intervalo de números que são válidos (long comporta), porém o código exclui das possibilidades. Por sua vez, fgets oferece proteção. Primeiramente, no código, fgets(buffer, SIZE, stdin) limita o valor lido, impedindo a ocorrência de overflow do buffer, o que poderia ser crítico. Na sequência, strtol realiza a conversão para o tipo long: long b = strtol(buffer, NULL, 10). Não é possível armazenar o valor em um tipo long, então strtol:

  1. Retorna o maior inteiro possível: LONG_MAX. Com isso, evita a ocorrência de overflow da variável b.
  2. Seta a flag errno para ERANGE indicando que um erro ocorreu, especificamente um valor processado com magnitude excessivamente grande.

Destaca-se que scanf não seta errno impedindo que estratégia semelhante seja adotada em scanf.

Nota-se que a lógica de fgets é segura. Mesmo que se tente um ataque baseado em overflow, todos os comportamentos estão bem definidos. Não haverá overflow de buffer e nem um integer overflow da variável b, que estará obrigatoriamente no seu intervalo de validade.

Se for um tipo float, a situação é mais sutil. De acordo com a IEEE 754, se um número for excessivamente grande para ser armazenado em um tipo float, deve se atribuir à variável o valor especial inf ou -inf (tópico 7.4 da IEEE 754 e abordado aqui [tópico 2 Overflow and underflow] e aqui [tópico: 2.3.2 Overflow]). Entretanto, isso não consta na C standard. Portanto, um compilador pode ou não reproduzir o comportamento descrito na IEEE 754. Caso haja obediência à IEEE 754, o comportamento de scanf, ao ler um número excessivamente grande, será atribuir à variável do tipo float o valor especial inf ou -inf. Esse é um comportamento definido e, nesse sentido, seguro. Isso é ilustrado no código abaixo.

// Exemplo 04
#include <stdio.h>
#include <math.h>

int main(void) {

    float a;
    printf("Digite o numero: ");              // 2E40
    int success = scanf("%f", &a);            // 1

    if (isinf(a)) {
        printf("Underflow ou Overflow!\n");   // Underflow ou Overflow!
    }
    printf("a = %f", a);                      // inf

    return 0;
}

/* ## Possível Output ##
 * Digite o numero: 2E40
 * Underflow ou Overflow!
 * a = inf
 */

Esse código foi testado no MSVC, Clang, GCC e TCC. Em todos a variável a recebeu o valor especial inf. Entretanto, compiladores C não são obrigados a obedecerem à IEEE 754 e, portanto, scanf não é seguro em relação ao armazenamento de números em ponto flutuante.

Por outro lado, a estratégia por fgets envolve duas operações sequenciais:

  1. fgets armazena o valor lido como string em um array de char
  2. strtof realiza a conversão da string para float

A primeira operação é segura, conforme o exemplo 3. A segunda operação também é segura, uma vez que o seu comportamento é determinado pela própria C standard. Se o valor convertido por strtof estiver fora do intervalo válido, então HUGE_VALF é retornado (referência). Com isso, há a certeza de um comportamento definido.

Portanto, o processamento de valores ponto flutuantes pela estratégia por meio de fgets é segura. O código abaixo é a versão com fgets do Exemplo 4.

// Exemplo 05
#include <stdio.h>
#include <math.h>
#include <stdlib.h>
#define SIZE 50    

int main(void) {

    char buffer[SIZE ];
    float a;
    printf("Digite o numero: ");          // 2E40        
    fgets(buffer, SIZE, stdin);
    buffer[strcspn(buffer, "\n")] = 0;    // remove '\n'    
    a = strtof(buffer, NULL);

    if (isinf(a)) {
        printf("Underflow ou Overflow!\n");
    }
    printf("a = %f", a);                  // +inf

    return 0;
}

/* ## Output ##
 * Digite o numero: 2E40
 * Underflow ou Overflow!
 * a = inf
 */

Estratégia de buffer[strcspn(buffer, "\n")] = 0: referência.

Função fgets para processamento de strings

Além do processamento de dados aritméticos, fgets também pode ser usado para processamento de strings, como substituto a scanf. O primeiro exemplo com scanf pode ser adaptado para uma versão alternativa com fgets.

// Exemplo 06
#include <stdio.h>
#define SIZE 7
    
int main(void) {

    char cidade[SIZE];
    printf("Insira o nome da sua cidade: ");   // Brasilia
    fgets(cidade, SIZE, stdin);
    printf("A cidade e: %s", cidade);          // Brasil

    return 0;
}

/* ## Output ##
 * Insira o nome da sua cidade: Brasilia
 * A cidade e: Brasil
 */

Da mesma forma que scanf, fgets também oferece proteção contra overflow do buffer. Entretanto, ao contrário de scanf, em fgets o valor máximo para o número de caracteres na string pode ser inserido de modo direto como um argumento, nesse caso, inserido por meio de SIZE (mais informações no Complemento).


Complemento

Com printf é possível inserir o valor para o campo delimitador por meio de um argumento. O exemplo a seguir ilustra isso:

// Exemplo 07
#include <stdio.h>
#define SIZE 6

int main(void) {

    char cidade[20] = "Brasilia";   
    printf("%.*s \n", SIZE, cidade);    // Brasil
    printf("%.6s \n", cidade);          // Brasil
    
    return 0;
}

/* ## Output ##
 * Brasil
 * Brasil
 */

Para scanf a única estratégia direta é a análoga ao do segundo printf. Isso é uma desvantagem uma vez que o campo delimitador via argumento, ao contrário da estratégia "hardcoded", permite trabalhar com facilidade casos em que o valor é proveniente de:

  • Uma variável de outro arquivo
  • Um argumento inserido pelo usuário

E ainda conveniente se for usado em diversos printf.

Observação: é possível scanf receber o valor para o campo delimitador via argumento, porém não de modo direto. Detalhes aqui e aqui.


Observação

Um buffer overflow significa de fato um extravasamento de dados, resultando em uma invasão a regiões de memória não pertencentes à variável. Em um integer overflow (ou floating overflow) não necessariamente acontece essa invasão. Ao se referir a esse tipo de overflow se faz alusão à tentativa de atribuição de um valor a uma variável que é incapaz de armazenar tal valor devido a magnitude excessiva dele. Para um integer overflow, isso configura comportamento indefinido, podendo resultar em um buffer overflow (invasão de memória), um wraparound, etc. Essa lógica é a que se deduz pela IEEE 754 e ela é adotada aqui. Entretanto, pode-se argumentar em contrário, uma posição bastante lógica.


Tópico Adicional:

Particularidades de scanf, gets e fgets no processamento de strings

O comportamento padrão da função scanf é parar a leitura no primeiro whitespace encontrado (referência). Entretanto, o whitespace é deixado no buffer de entrada. Portanto, o código a seguir não está correto:

// Exemplo 08
#include <stdio.h>
#define SIZE 20

int main() {

    char cidade[SIZE];
    char estado[SIZE];

    printf("Cidade: ");           // Manaus  
    scanf("%19s", cidade);
    printf("Estado: ");
    fgets(estado, 20, stdin);

    return 0;
}

/* ## Possível Output ##
 * Cidade: Manaus
 * Estado:
 */

O que acontece é que scanf realiza a leitura da cidade inserida pelo usuário e deixa no buffer de entrada \n. Com isso, fgets lê o restante do buffer de entrada (\n) e armazena na variável estado. Com isso, o usuário não consegue inserir o estado. Para corrigir esse código é necessário inserir getchar após cada scanf. Entretanto, essa proteção falha se o usuário inserir para a variável cidade a sequência: Manaus space enter. O programa retorna ao problema inicial: getchar irá remover o espaço do buffer, porém a nova linha permanecerá no buffer. Uma alternativa para que esse problema também seja resolvido é substituir getchar por while ((c = getchar()) != EOF && c != '\n'). Com isso, será limpo do buffer de entrada tudo após o último caractere processado por scanf até se encontrar uma nova linha ou o fim do arquivo. Portanto, para essa solução, cada getchar seria substituído por:

int c;
while ((c = getchar()) != EOF && c != '\n');

Para ambos os casos, fgets já provê intrinsicamente a proteção necessária. Isso porque fgets lê até uma nova linha, fim do arquivo ou alcançar o número de caracteres delimitados, o que acontecer primeiro (referência). No caso em questão, a nova linha é o que acontece primeiro e ela é incluída na variável associada (no caso cidade ou estado) e removida do buffer de entrada. De modo semelhante, gets lê até que seja encontrada uma nova linha ou o fim do arquivo. Caso seja encontrada uma nova linha, ela é incluída na variável associada (referência).

Por fim, diversas particularidades de scanf e fgets são exploradas aqui.


Conclusão

Isso significa que em alguns casos scanf pode ser usado com segurança e em outros não?

Sim. O processamento de strings pode ser realizado com segurança por scanf. Entretanto, no processamento de valores inteiros e de ponto flutuante não há garantia.

Há casos em que gets pode ser usado com segurança ou deve ser evitado completamente?

Deve ser evitado completamente. A função gets é segura apenas em ambientes em que se imponha limites à stdin, o que é um caso muito específico.

De que forma fgets é mais segura?

A função fgets proporciona segurança tanto no processamento de strings como no de dados aritméticos (inteiros e de ponto flutuante).

Sua resposta

Ao clicar em “Publique sua resposta”, você concorda com os termos de serviço, política de privacidade e política de Cookies

Esta não é a resposta que você está procurando? Pesquise outras perguntas com a tag ou faça sua própria pergunta.