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Estou estudando iteradores e geradores em Python, e fiquei intrigado com uma questão, e não acho a resposta para isso em nenhum lugar.

Quando criamos um gerador em Python através de uma expressão geradora como (x**2 for x in range(50)), temos uma expressão matemática, uma lei que o programa consegue utilizar para calcular o próximo valor, se demandado. O mesmo acontece se criarmos o gerador por uma função geradora, como:

def quadrados(n, max):
    while n < max:
        yield n**2

Enfim, em ambos os casos o computador tem uma receita de bolo, um passo a passo que ele segue para gerar o próximo item. Acredito que o mesmo aconteça ao se criar um iterador com uma classe.

A pergunta é, como um iterador criado a partir de uma lista de valores aleatórios, por exemplo, consegue "produzir" os próximos valores?
Se definimos um iterador como it = iter([95, 27, 2348, 32, 27]), como ele consegue resgatar os itens sem eles estarem salvos na memória? Se ele simplesmente acessa essa lista e obtém o valor, é porque esse valor está salvo na memória, não?

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  • Eu não conheço a fundo os internals do Python, mas tanto iter quanto os geradores devem guardar os valores (o seu estado) em memória. No caso do iter, vc passou uma lista (pois está delimitado por [ ]), e provavelmente ele cria um objeto que mantém uma referência para esta lista. Não imagino outra forma dele conseguir iterar pelos valores, a não ser mantendo-os internamente como parte do objeto criado.
    – hkotsubo
    11/06/21 às 12:31
  • é a única forma que consigo imaginar também. mas nesse caso os valores estariam sendo salvos na memória, o que me parece um pouco contraditório, pois se entendi bem o conceito, os iteradores não guardam todos os dados na memória, e por isso são mais leves e rápidos do que listas, por exemplo.
    – Fernando
    11/06/21 às 13:54
  • 1
    Mas qdo vc faz iter([1, 2, 3]), a lista [1, 2, 3] já foi criada, então não tem como economizar nada aí, pois a memória já foi "gasta"... Não tem nada de contraditório
    – hkotsubo
    11/06/21 às 15:32
  • Dei uma fuçada no código fonte do CPython e coloquei uma resposta dando mais detalhes...
    – hkotsubo
    12/06/21 às 1:50
  • TL;DR: quand você passa uma lista para o iter, o iterador da listta mantém uma referência pra ela. Então ela só é destruída quando o iterador também for (quando sair de escopo, ou com um del). Não tem surpresas aí: só manter a mesma regra sempre: um objeto existe enquanto tem referências pra ele.
    – jsbueno
    14/06/21 às 17:27
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Primeiro, um pouco de terminologia/conceitos.

De acordo com a documentação, um iterator (ou "iterador") é qualquer objeto que implemente os métodos __next__ e __iter__ (sendo que este último deve retornar o próprio objeto, enquanto o primeiro retorna o próximo item do iterator, ou lança um StopIteration quando não há mais elementos).

Já um generator (ou "gerador") é uma função (e portanto também é chamada de generator function) que retorna um generator iterator (que a documentação define como "Um objeto criado por uma generator function"). Uma generator function é criada usando-se o yield, que já é explicado em detalhes aqui e aqui.

E existe também a generator expression, que é uma expressão que retorna um generator (como a que tem na pergunta: (x**2 for x in range(50))).

Todo objeto generator iterator (seja criado por uma generator function ou uma generator expression) é também um iterator. Mas nem todo iterator é um generator.


Um generator é lazy no sentido de que ele só retorna o próximo valor se você chamar o método __next__ (seja explicitamente através do builtin next, ou implicitamente, quando você o percorre com um for por exemplo). Internamente ele guarda o seu estado (basicamente, "onde ele parou" e o valor de cada variável naquele ponto; leia o link já indicado para saber mais detalhes), para que na próxima chamada de next ele possa continuar a execução de onde parou.

Em geral um generator não guarda todos os valores de uma vez na memória, gerando-os sob demanda. Mas nada impede que você faça isso:

# itera pelos elementos do iterável uma ou mais vezes
def ciclo(iteravel, repetir=1):
    # guarda os valores do iterável em uma lista
    valores = list(iteravel)
    for _ in range(repetir):
        for n in valores:
            yield n

# imprime duas vezes os valores da generator expression
for n in ciclo((x ** 2 for x in range(3)), 2):
    print(n)

Ou seja, a generator function ciclo cria um generator que itera várias vezes pelo iterável informado. Os valores são guardados em uma lista porque o iteravel pode ser outro generator (que só pode ser iterado uma vez), então guardando os valores em uma lista eu garanto que posso iterar várias vezes sem problemas. No exemplo acima, se eu fizesse o segundo for diretamente no iteravel, os valores só seriam retornados uma vez, já que a generator expression cria um generator, e este só pode ser iterado uma vez.

Ou seja, eu criei um generator que guarda todos os valores em memória de uma vez (só por curiosidade, é exatamente isso que a função itertools.cycle faz).

Claro que isso é um corner case, e em geral, os generators não guardam todos os valores na memória (a menos que eu force isso, como fiz acima), computando-os apenas quando necessário. Já um iterator que não é um generator, não necessariamente será lazy.

Quando você faz iter([1, 2, 3]), ele retorna um iterator, que não é um generator, como pode ser verificado com o módulo inspect:

import inspect

# iter cria um iterator que não é generator
x = iter([1, 30, 99, 42])
print(inspect.isgenerator(x)) # False

# generator expression cria um generator
x = (x * 2 for x in range(10))
print(inspect.isgenerator(x)) # True

Além disso, a lista [1, 2, 3] já foi criada e internamente o iterator mantém uma referência para ela. O que o iterator faz é iterar para o próximo elemento quando o método __next__ é chamado, mas como a lista já foi criada, você não tem a "economia de memória". Um iterator só economizaria memória se os seus valores fossem computados sob demanda, como o exemplo do generator acima. Por exemplo:

# iterator que gera os valores sob demanda
class Squares(object):
    def __init__(self, start, stop):
        self.start = start
        self.stop = stop

    def __iter__(self): return self

    # o próximo elemento é calculado somente se next for chamado
    def __next__(self):
        if self.start >= self.stop:
            raise StopIteration
        current = self.start * self.start
        self.start += 1
        return current

iterator = Squares(3, 10)
print(next(iterator)) # 9
print(next(iterator)) # 16

Se eu usar inspect.isgenerator no iterator acima, o resultado será False.

Mas se você cria um iterator com base nos valores de uma lista, e esta lista já foi criada, aí não tem como economizar nada mesmo. Então a sua pergunta "como ele consegue resgatar os itens sem eles estarem salvos na memória?" parte de uma premissa errada, pois os valores estão sim na memória, e é assim que o iterator consegue recuperá-los.


Indo um pouco mais a fundo, fui dar uma olhada no código fonte do CPython (que é a implementação de referência da linguagem, e muito provavelmente a que você está usando). Consultei o código hoje (11/jun/2021):

O builtin iter está definido aqui:

static PyObject *
builtin_iter(PyObject *self, PyObject *const *args, Py_ssize_t nargs)
{
    PyObject *v;

    if (!_PyArg_CheckPositional("iter", nargs, 1, 2))
        return NULL;
    v = args[0];
    if (nargs == 1)
        return PyObject_GetIter(v);
    if (!PyCallable_Check(v)) {
        PyErr_SetString(PyExc_TypeError,
                        "iter(v, w): v must be callable");
        return NULL;
    }
    PyObject *sentinel = args[1];
    return PyCallIter_New(v, sentinel);
}

No caso, quando passamos apenas um argumento (por exemplo, uma lista), ele cai no if (nargs == 1) e chama PyObject_GetIter, que por sua vez é definido aqui:

PyObject *
PyObject_GetIter(PyObject *o)
{
    PyTypeObject *t = Py_TYPE(o);
    getiterfunc f;

    f = t->tp_iter;
    if (f == NULL) {
        if (PySequence_Check(o))
            return PySeqIter_New(o);
        return type_error("'%.200s' object is not iterable", o);
    }
    else {
        PyObject *res = (*f)(o);
        if (res != NULL && !PyIter_Check(res)) {
            PyErr_Format(PyExc_TypeError,
                         "iter() returned non-iterator "
                         "of type '%.100s'",
                         Py_TYPE(res)->tp_name);
            Py_DECREF(res);
            res = NULL;
        }
        return res;
    }
}

No caso, o é a lista, cujo Py_TYPE(o) é PyList_Type, que por sua vez é definido aqui:

PyTypeObject PyList_Type = {
    // um monte de linhas...
    list_iter,                                  /* tp_iter */
    // mais um monte de linhas...

Veja que no campo tp_iter o valor é a função list_iter. Como esta função não é nula, a função PyObject_GetIter cai no else e chama a função list_iter, passando a lista como argumento. E essa função (definida no mesmo arquivo que define o PyList_Type) faz o seguinte:

static PyObject *
list_iter(PyObject *seq)
{
    listiterobject *it;

    if (!PyList_Check(seq)) {
        PyErr_BadInternalCall();
        return NULL;
    }
    it = PyObject_GC_New(listiterobject, &PyListIter_Type);
    if (it == NULL)
        return NULL;
    it->it_index = 0;
    Py_INCREF(seq);
    it->it_seq = (PyListObject *)seq;
    _PyObject_GC_TRACK(it);
    return (PyObject *)it;
}

E é na linha it->it_seq = (PyListObject *)seq; que vemos que a lista (seq) é atribuída para o campo it_seq do iterator. Ou seja, o iterator mantém uma referência para a lista. Definição do listiterobject (também no mesmo arquivo que define o list_iter):

typedef struct {
    PyObject_HEAD
    Py_ssize_t it_index;
    PyListObject *it_seq; /* Set to NULL when iterator is exhausted */
} listiterobject;

E a implementação do método next (também no mesmo arquivo que define o list_iter):

static PyObject *
listiter_next(listiterobject *it)
{
    PyListObject *seq;
    PyObject *item;

    assert(it != NULL);
    seq = it->it_seq;
    if (seq == NULL)
        return NULL;
    assert(PyList_Check(seq));

    if (it->it_index < PyList_GET_SIZE(seq)) {
        item = PyList_GET_ITEM(seq, it->it_index);
        ++it->it_index;
        Py_INCREF(item);
        return item;
    }

    it->it_seq = NULL;
    Py_DECREF(seq);
    return NULL;
}

Que mostra que o iterator vai percorrendo os elementos da lista um a um.


Ou seja, o iterator guarda uma referência da lista, e é assim que ele consegue retornar os seus elementos. Como a lista já foi criada, não há a geração lazy (sob demanda), como ocorre com os generators (ou com o iterator Squares do exemplo acima), pois os valores já foram criados anteriormente quando você criou a lista.

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Você parece estar se confundindo um pouco ao falar de geradores e iteradores.

Você está certo em falar que geradores geram seus valores de forma dinâmica, isto, é, se tivermos a função geradora (editei para evitar um loop infinito):

def quadrados(n, max):
    while n < max:
        yield n**2
        n += 1

E você iterar sobre essa função geradora dessa forma:

for quadrado in quadrados(2, 10):
    print(quadrado)

A cada execução do for loop, o Python acessa o corpo da função quadrados, vai até a linha com yield e retorna o valor para ser usado no seu for loop.

O importante de entender aqui é que, no momento entre o yield e o final do bloco dentro do for loop, a função quadrados está efetivamente pausada: o gerador economiza espaço em memória porque ao invés de ter que guardar todos os valores resultantes, ele guarda simplesmente o estado atual da função. A função quadrados está lá, "congelada", esperando o momento em que vai poder continuar a executar - o que acontece no momento em que o bloco dentro do for loop termina e você passa para a próxima execução.

Por outro lado, uma expressão geradora como (x**2 for x in range(50)) é apenas uma forma mais simples de escrever uma "pseudo função geradora" em uma linha. Se tentarmos iterar sobre essa expressão, Python lidará com os valores da mesma forma: gera um valor, "congela" o estado do gerador, trabalha com o valor, "descongela" o gerador e gera o próximo valor, ...

Quando você deu seu exemplo com it = iter([95, 27, 2348, 32, 27]), note que aqui não estamos falando de geradores, mas sim de iteradores, que são simplesmente objetos sobre os quais podemos iterar com um for loop. Nesse seu exemplo, a lista [95, 27, 2348, 32, 27] é sim criada e mantida em memória, pois ela é referenciada pelo próprio iterador, mesmo que você explicitamente não a tenha referenciado por uma variável como my_list = [95, 27, 2348, 32, 27]. Este seu exemplo não envolve geradores em nenhum momento, e portanto o espaço em memória é imediatamente ocupado pela lista no momento em que é declarada.

Ok, mas e se agora combinarmos as coisas utilizando uma expressão geradora como it = iter(x**2 for x in range(50))? Nesse caso, tanto os valores originais do seu range(50) quanto os valores resultantes da expressão x**2 for x in range(50) estão dentro de geradores. Então Python só precisa ir "congelando" e "descongelando" os geradores para conseguir iterar sobre eles, sem precisar alocar todos os elementos na memória.

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    tecnicamente não existe isso de que geradores não possam ter um estado interno que use memória. É só wishfull thinking do A.P. por conta de exemplos curtos e simples de geradores, muito populares na documentação.
    – jsbueno
    14/06/21 às 17:29

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