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Estou estudando descritores em Python e me deparei que os mesmos devem ser implementados como atributos de classe por exemplo:

class Descriptor:

    def __init__(self, obj):
        self.obj = obj

    def __get__(self, instance, owner=None):
       print('Acessando o __get__')
       return self.obj


class Grok:

    attr = Descriptor('value')

# Output
>>> g = Grok()
>>> g.attr
Acessando o __get__
value

Dessa forma o mesmo funciona, mas se eu fizer dessa forma:

class Grok:

    def __init__(self, attr):
        self.attr = Descriptor(attr)


# Output
>>> g = Grok('value')
>>> g.attr
<__main__.Descriptor at 0x7fe5bca77550>

Não funciona dessa forma, minha dúvida é: Por quê?

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Como comentado em Qual a função dos descritores em Python? existe uma ordem de chamadas que o interpretador executa quando você faz g.attr. Como g, nesse caso, é uma instância, o interpretador irá executar g.__getattribute__('attr'). Em Python, o que o interpretador irá tentar acessar é:

type(g).__dict__['attr'].__get__(g, type(g))

Ou seja, buscará o valor de attr na classe de g, não em g diretamente. Isso explica porque funciona quando o descritor é um atributo de classe, mas não é suficiente para demonstrar que não funciona para atributo de instância. Para tal, iremos mais a fundo no código e analisar o código em C que é executado.

A implementação em C do método __getattribute__ é descrito por PyObject_GenericGetAttr que é implementado em Objects/object.c. Vamos analisar aos poucos.

A função é:

PyObject *
PyObject_GenericGetAttr(PyObject *obj, PyObject *name)
{
    return _PyObject_GenericGetAttrWithDict(obj, name, NULL);
}

E, assim, devemos analisar a implementação de _PyObject_GenericGetAttrWithDict.

PyObject *
_PyObject_GenericGetAttrWithDict(PyObject *obj, PyObject *name, PyObject *dict)
{
    PyTypeObject *tp = Py_TYPE(obj);
    PyObject *descr = NULL;
    PyObject *res = NULL;
    descrgetfunc f;
    Py_ssize_t dictoffset;
    PyObject **dictptr;

    ...
}

Informações importantes para continuarmos:

  1. A função recebe como parâmetro obj, uma referência ao objeto g;
  2. A função recebe como parâmetro name, nome do atributo acessado;
  3. A função recebe como parâmetro dict, um dicionário que, neste caso, será nulo;
  4. A partir de obj buscasse a referência ao seu tipo, Grok, pela variável tp;
  5. Inicializa ponteiros nulos descr, que será um possível descritor, res, o retorno da função, f, a função __get__ do possível descritor, assim como outros ponteiros;

A partir disso é validado o nome do atributo acessado, retornando um erro se o atributo não for uma string. Se for, incrementa o número de referências ao objeto com Py_INCREF.

if (!PyUnicode_Check(name)){
    PyErr_Format(PyExc_TypeError,
                 "attribute name must be string, not '%.200s'",
                 name->ob_type->tp_name);
    return NULL;
}
Py_INCREF(name);

Após, é validado o dicionário interno do tipo de g, tp, finalizando a função em caso de falha:

if (tp->tp_dict == NULL) {
    if (PyType_Ready(tp) < 0)
        goto done;
}

Após, é buscado pelo atributo na classe de g, Grok, salvando em descr. Se encontrado, incrementa-se as referências e é definido o valor de f como sendo a função __get__ do valor encontrado em descr. Se encontrar a função e o descritor for um descritor de dados (possui o método __set__), define-se res como resultado de __get__ e finaliza-se a função:

descr = _PyType_Lookup(tp, name);

f = NULL;
if (descr != NULL) {
    Py_INCREF(descr);
    f = descr->ob_type->tp_descr_get;
    if (f != NULL && PyDescr_IsData(descr)) {
        res = f(descr, obj, (PyObject *)obj->ob_type);
        goto done;
    }
}

A função que verifica se é um descritor de dados, PyDescr_IsData, é definida por

#define PyDescr_IsData(d) (Py_TYPE(d)->tp_descr_set != NULL)

Que basicamente verifica se existe o método __set__ no objeto.

E é até aqui que é executado quando o descritor (de dados) é um atributo de classe. Para um atributo de instância, a execução continua. Agora, como trabalharemos direto com a instância, será necessário considerar também o dicionário interno dela. Assim, o próximo passo executado será a união entre os dicionários da instância e da classe, sendo armazenado o ponteiro final em dict:

if (dict == NULL) {
    /* Inline _PyObject_GetDictPtr */
    dictoffset = tp->tp_dictoffset;
    if (dictoffset != 0) {
        if (dictoffset < 0) {
            Py_ssize_t tsize;
            size_t size;

            tsize = ((PyVarObject *)obj)->ob_size;
            if (tsize < 0)
                tsize = -tsize;
            size = _PyObject_VAR_SIZE(tp, tsize);
            assert(size <= PY_SSIZE_T_MAX);

            dictoffset += (Py_ssize_t)size;
            assert(dictoffset > 0);
            assert(dictoffset % SIZEOF_VOID_P == 0);
        }
        dictptr = (PyObject **) ((char *)obj + dictoffset);
        dict = *dictptr;
    }
}

Depois disso, será buscado pelo atributo no dicionário dict e, se encontrar, é retornado o valor:

if (dict != NULL) {
    Py_INCREF(dict);
    res = PyDict_GetItem(dict, name);
    if (res != NULL) {
        Py_INCREF(res);
        Py_DECREF(dict);
        goto done;
    }
    Py_DECREF(dict);
}

Perceba que aqui, como o atributo de instância existirá no dicionário, o valor retornado em PyDict_GetItem será a instância do decorador que, como será diferente de nula, será retornada, sem considerar se existe, ou não, o método __get__ definido.

Se não encontrar o atributo no dicionário da instância, será verificado se o descritor encontrado na classe é um descritor de não-dados (que não possui o método __set__) e, se existir, é chamado:

if (f != NULL) {
    res = f(descr, obj, (PyObject *)Py_TYPE(obj));
    goto done;
}

Após, se ainda não satisfez nenhuma das condições anteriores, é verificado se o objeto descr é diferente de nulo (achou alguma coisa sobre o atributo no tipo de g), então define-se descr como sendo o resultado e o retorna:

if (descr != NULL) {
    res = descr;
    descr = NULL;
    goto done;
}

E, finalmente, se nada deu certo até agora, retorna o erro de atributo não encontrado:

PyErr_Format(PyExc_AttributeError,
             "'%.50s' object has no attribute '%U'",
             tp->tp_name, name);

Para finalizar, mexe-se nas quantidades de referências e retorna-se o valor de res:

done:
    Py_XDECREF(descr);
    Py_DECREF(name);
    return res;

A função inteira, para melhor visualização é:

PyObject *
_PyObject_GenericGetAttrWithDict(PyObject *obj, PyObject *name, PyObject *dict)
{
    PyTypeObject *tp = Py_TYPE(obj);
    PyObject *descr = NULL;
    PyObject *res = NULL;
    descrgetfunc f;
    Py_ssize_t dictoffset;
    PyObject **dictptr;

    if (!PyUnicode_Check(name)){
        PyErr_Format(PyExc_TypeError,
                     "attribute name must be string, not '%.200s'",
                     name->ob_type->tp_name);
        return NULL;
    }
    Py_INCREF(name);

    if (tp->tp_dict == NULL) {
        if (PyType_Ready(tp) < 0)
            goto done;
    }

    descr = _PyType_Lookup(tp, name);

    f = NULL;
    if (descr != NULL) {
        Py_INCREF(descr);
        f = descr->ob_type->tp_descr_get;
        if (f != NULL && PyDescr_IsData(descr)) {
            res = f(descr, obj, (PyObject *)obj->ob_type);
            goto done;
        }
    }

    if (dict == NULL) {
        /* Inline _PyObject_GetDictPtr */
        dictoffset = tp->tp_dictoffset;
        if (dictoffset != 0) {
            if (dictoffset < 0) {
                Py_ssize_t tsize;
                size_t size;

                tsize = ((PyVarObject *)obj)->ob_size;
                if (tsize < 0)
                    tsize = -tsize;
                size = _PyObject_VAR_SIZE(tp, tsize);
                assert(size <= PY_SSIZE_T_MAX);

                dictoffset += (Py_ssize_t)size;
                assert(dictoffset > 0);
                assert(dictoffset % SIZEOF_VOID_P == 0);
            }
            dictptr = (PyObject **) ((char *)obj + dictoffset);
            dict = *dictptr;
        }
    }
    if (dict != NULL) {
        Py_INCREF(dict);
        res = PyDict_GetItem(dict, name);
        if (res != NULL) {
            Py_INCREF(res);
            Py_DECREF(dict);
            goto done;
        }
        Py_DECREF(dict);
    }

    if (f != NULL) {
        res = f(descr, obj, (PyObject *)Py_TYPE(obj));
        goto done;
    }

    if (descr != NULL) {
        res = descr;
        descr = NULL;
        goto done;
    }

    PyErr_Format(PyExc_AttributeError,
                 "'%.50s' object has no attribute '%U'",
                 tp->tp_name, name);
  done:
    Py_XDECREF(descr);
    Py_DECREF(name);
    return res;
}
  • Tem mais algumas coisas que é necessário comentar. Vejo se consigo ainda essa noite, se ninguém responder antes. – Anderson Carlos Woss 23/10/18 às 21:37
  • Agradeço pela resposta. – ThiagoLuizS 23/10/18 às 23:24
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A outra resposta está muito boa - inclusive com trechos de código da implementação de referência. Mas vou escrever uma resposta mais curta aqui, abordando um outro aspecto da questão.

Acho que pode-se pensar nisso como um "guia" pra entender vários dos comportamentos da linguagem - que, na minha opinião, é muito agradável pro que trás pouquíssimas surpresas uma vez que você entenda esses guias.

Em Python, toda a funcionalidade "mágica" - ou seja - métodos que são chamados de forma transparente pela própria linguagem - está amarrada a atributos da classe, não das instâncias.

Sim, pra facilidade de reconhecimento, e evitar coincidência de nomes, essas funcionalidades também são, em geral, denotadas por nomes que começam e terminam com um underscore duplo - os famosos __dunder__.

Mas então, uma das razões pelas quais se optou por esse comportamento é isso: descriptors implicam em comportamento especial para acesso ao atributo - assim, como os atributos __len__, __init__, etc... são especiais - e por isso tem que ser definidos na classe.

A partir dessa motivação que é mais um "feeling", aí vem razões práticas, como implementação - o acesso de atributos numa instância funciona a partir de um dicionário normal - esse mecanismo teria que ser mudado pra que ao recuperar um atributo da instância, em vez de entregar esse atributo, alguma outra operação fosse feita.

E - como o descriptor seria "instalado" numa instância pra começar? Ia ficar estranho, no primeiro acesso de objeto.attr = MeuDescriptor() é feito um assignment normal, e a partir daí, nos acessos seguitnes objeto.attr = ..., em vez de se colocar o atributo no __dict__ da instância, o método __set__ do descriptor seria chamado. Isso seria colocar uma depêndencia de estado nas operações de assignment que tem potencial para complicar muito o código - ja que o que um assigment faz dependeria da ordem de execução.

Tanto é que mesmo que uma implementação de descriptor (na classe mesmo) permite que você escreva código que faz coisas diferentes dependendo da ordem em que valores são atribuidos ao descriptor: é só manter uma variável de estado controlada pelo descriptor. Mas isso não é usado em quase nenhum caso.

por fim

Essa é a opção de implementação, mas a linguagem é dinâmica o suficiente para permitir que você faça suas próprias classes que funcionem com "descriptors na instância" - e nem daria tanto trabalho. Basta fazer uma classe base definindo os métodos __getattribute__ e __setattr__ para trabalharem com descriptors. (e claro, o efeito maluco que eu mencionei acima ficaria valendo).

Para funcionar só com "readonly" seria algo mais ou menos assim:

class InstanceDescriptableBase:
    def __getattribute__(self, attrname):
        attr = super().__getattribute__(attrname)
        if hasattr(attr, "__get__"):
            attr = attr.__get__(self, self.__class__)
        return attr

E no terminal:

In [3]: class D:
   ...:     def __get__(self, instace, owner):
   ...:         return 42
   ...:     

In [4]: class Test(InstanceDescriptableBase):
   ...:     def __init__(self):
   ...:         self.attr = D()
   ...:         

In [5]: t = Test()

In [6]: t.attr
Out[6]: 42
  • Era algo assim que eu queria complementar na resposta, mas imaginei que logo você responderia :D – Anderson Carlos Woss 24/10/18 às 13:16
  • Hahahaha! Tem alguns assuntos que não resisto mesmo. Ainda estou me segurando pra não escrever o código na pergunta sobre abstract static methods de ontem. – jsbueno 24/10/18 às 13:21

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