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Relacionada: O que são os princípios SOLID?

Encomendei meu "Princípios, Padrões e Práticas Ágeis em C#" do Robert C. Martin e um dos motivos é o SOLID. Mas sou reticente quanto ao SOLID.

Eu nem conheço os princípios todos. Conheço o SOLI, falta o D. O caso é que vejo os princípios e penso "tá, e daí?". Alguns deles me parece que não vêm com parâmetros dizendo onde devem ser aplicados, ou como. São meio como padrões de projeto: você primeiro acha uma situação em que eles se encaixam, e então aplica caso eles caiam bem naquela situação.

Além disso, eles me parecem só um conjunto esparso de exigências que individualmente são bem-fundamentadas, mas em conjunto não possuem coesão nenhuma. Por que meu código vai ficar sólido™ se eu aplicá-las?

Quem os defende os coloca em um patamar bem alto. Mas não sei se são tudo isso. Há quem critique (se for para ler uma só das que estão listadas abaixo, leia a primeira).

Crítica, que no geral concordaram: Why I don't teach SOLID

Críticas e defesas: SOLID is OOP for dummies

Outra crítica: Not-so-SOLID OOP principles

Crítica criticada: Re: Why every element of SOLID is wrong

Defesa contra algumas críticas: In defense of the SOLID principles

Gostaria de uma avaliação tão imparcial quanto possível da aplicabilidade desses princípios, e se eles trazem todos os benefícios que se alardeia deles.

  • Devo presumir que os negativadores são fãs do SOLID? :) – Piovezan 14/10/18 às 20:59
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Primeiro erro que as pessoas cometem é achar que o Uncle Bob é o criador do SOLID. Esta sigla foi criada pelo Michael Feathers. E os conceitos individualmente foram criados por outras pessoas, embora o Robert Martin tenha dado a sua versão de como cada um dos 5 itens deveriam ser interpretados. Então SOLID é mais umas daquelas coisas que cada um entende de um jeito, e portanto ninguém sabe ao certo o que é, e não serve como bom parâmetro, mas são boas dicas para se pensar e discutir o assunto.

E eles são meio que propositalmente vagos. Esta é uma das críticas que se faz ao princípio. O problema dele é que se a pessoa entende tudo o que ele é, não precisa dele, e se a pessoa apenas o usa como base para o que precisa realizar a pessoa fica "bitolada" e comete erros por seguir "fórmula mágica".

As ideias do SOLID são boas, mas é preciso sempre entender todo o contexto dele. Entendê-lo com profundidade para saber quando e como aplicar. O exagero no seu uso é um problema, como quase tudo que fazemos.

No geral o problema dele é colocar muito penduricalho, muito mecanismo no que deveria ser o domínio. E ele nem sempre produz a maravilha que se espera dele, mesmo quando feito certo. Ainda precisará de muita refatoração. Se é para refatorar, só coloque coisas dele quando precisa.

Plug colocado na tomada através de gambiarra no meio do caminho

Um outro problema relacionado é que ele mistura níveis de abstração, você encontra no mesmo código coisas que expressam seu domínio e coisas que ajudam seu código "funcionar melhor".

O que você deve entender é que certas relações entre os objetos são difíceis de serem desfeitas e isto é o que importa em todo o SOLID. Não crie dependências onde uma refatoração será muito complicada. O segredo é eliminar dependências, é permitir composição.

De que software estamos falado?

Isto é algo que sempre é deixado de lado. Estamos falando de um jogo? De algo embarcado? De um aplicação interna? Se uma produto comercial? De uma biblioteca ou framework público? Ou de algo que não tem importância ou tempo de vida longo?

Relação com OOP

Há quem diga que ele ajuda OOP. Há quem diga que vai contra, ou pelo menos que não é sobre OOP. Não me parece que seja sobre OOP, cada um fala sobre uma coisa e no geral fala sobre modularização, ou até fazer o oposto do que OOP prega.

Princípios importantes

Eu gosto de outros princípios com prioridade, dois deles são o YAGNI e o KISS que pregam que você deva fazer tudo simples e só o que precisa. Claro com algum cuidado para não exagerar. De fato o KISS diz para fazer simples, mas não simplório, e o YAGNI não está dizendo para deixar a aplicação completamente pelada.

Curiosamente as pessoas que criaram e defendem o SOLID também defendem muito o código legado, a melhoria contínua, e a refatoração. Pois bem, não usar o SOLID até que ele seja necessário atende o dois princípios acima e ele pode ser aplicado quando necessário em código legado fazendo refatoração. Mas somente quando o ganho compensa.

Outro princípio que gosto muito, e é o que mais gosto é o DRY. Pela experiência que tive em mais de 35 anos desenvolvendo software, e em geral trabalhando anos no mesmo software, o que mais facilita a manutenção é o DRY. Eu chego exagerar no uso dele, mas não me traz grandes problemas. Ter uma informação canônica do sistema é fundamental. Quando você começa espalhar a informação vai perdendo o controle. E se precisar mudar algo que está espalhado vai ter problemas, além de ficar muito mais confuso entender o que está ocorrendo. Claro, o uso errado tentando reduzir uma repetição circunstancial pode causar problemas, por isso que sempre falo que é preciso saber modelar com maestria, entender o problema com profundidade.

Acho lamentável que andam criando uma onda contra o DRY. DDD é muito não DRY, SRP diz que deve ter um motivo para mudar uma classe, mas não que uma mudança de uma classe não deva mudar outras.

Além disso, eles me parecem só um conjunto esparso de exigências que individualmente são bem-fundamentadas, mas em conjunto não possuem coesão nenhuma. Por que meu código vai ficar sólido™ se eu aplicá-las?

Concordo. Mas acho que só botaram junto para vender a ideia mais facilmente. Esquece que o software será mais sólido. Entenda que isto em si é só marketing. Se apegue aos princípios individuais em si e os entenda. Ou aos princípios originais.

As pessoas gostam de comprar essas ideias, e quanto mais ela é repetida mais as pessoas querem segui-la. Cria um círculo virtuoso para quem entende o que faz e um vicioso para quem não entende. Quando as pessoas começam fazê-lo só porque leu que é algo que tem que fazer está errando por definição, mesmo que dê certo por coincidência.

Dependency Inversion

Justamente o que ainda não aprendeu, que normalmente é implementado com o tal do DI (já falei sobre ele), é uma das coisas que mais crítico. Porque na maior parte das vezes é criado unicamente para facilitar o teste. Nem falam do que. E é usado ideologicamente. Qualquer coisa que seja colocando no código sem uma necessidade dele em si eu sou contra. Se ele é usado porque o software ficará melhor é ok. Se é usado para dar flexibilidade e isto é opcional também ok. Se é só para testes tem outras maneiras de realizá-lo. Geralmente é muito simples adicionar isto depois.

Banco de plástico colocado no lugar de um banco de carro em um carro

Crítica a cada ponto

  • SRP

    É legal, mas é confuso. No começo as pessoas entenderam que era o DRY, hoje dizem que é outra coisa e isso me preocupa. É só sobre modularizar.

    Um dos problemas dele é que pode incentivar criar classes demais, funções demais, tornar o código complexo demais, ter que criar elementos de ligação, facilitadores, ou então códigos bem verbosos para expressar o que precisa por causa da existência de tantos componentes. E tendo tanta coisa fica mais fácil mexer individualmente neles, mas fica muito complicado manter e usar.

    É muito difícil definir bem o que é responsabilidade única. Quase todo mundo manda criar um Cliente que deriva de PessoaJuridica, e no momento que faz isto este Cliente passa ter pelo menos duas responsabilidades, mas "ninguém" enxerga isso.

    Em muitos casos uma mudança em uma classe exige a mudança em outra de forma associada para funcionar corretamente e de forma que não tem como você saber automaticamente. Refatorações para adicionar algo do SOLID tardiamente costuma ser obrigatória nas linguagens com um bom sistema de tipos, caso contrário não compila. Em outras linguagens pode causar problemas em tempo de execução, a não ser que a pessoa crie no código um sistema de controle de tipagem, o que indica que ela escolheu a linguagem errada para fazer aquilo.

    Pra falar a verdade não temos ferramentas adequadas para lidar com isso, mesmo que seja desejável. E ninguém cria.

  • OCP

    Como ideia geral é bom, mas na prática cria complexidade porque tudo exige fazer novas versões. É comum violar o DRY por causa disto. Uma forma de evitar isto é separar bem as responsabilidades, mas quando o faz da maneira correta começa fugir de OOP.

    Em geral ela prega o abuso de herança, até do jeito certo, mas ainda assim usar herança onde talvez possa fazer de um jeito mais flexível e mais fácil com composição.

    Quando é tudo bem planejado e um novo tipo é criado herdado de algum tipo que foi pensado para ser base de outra coisa, pode funcionar. Quando você pega algo de um domínio e herda em outro domínio para flexibilizá-lo, tem algo errado, aí é melhor deixar o objeto tratar as diferenças.

    Uma das críticas que faço é que ela vê herança de uma forma básica. Hoje algumas linguagens possuem mecanismos mais sofisticados que permitem algo que fica no meio termo.

  • LSP

    A ideia é muito boa, principalmente porque ela manda evitar fazer herança de forma atabalhoada, sem muito sentido. Evita-se assim o reuso pelo reuso, precisa ter um motivo para herdar.

  • ISP

    Em geral é bom, mas é mais sobre contratos. A parte ruim é quando exageram só pra seguir isto. Desde que você possa refatorar é melhor não segregar tanto assim e segregue depois quando necessário. Não entenda errado, é bom segregar, mas cuidado para não exagerar. O pior é quando a pessoa cria uma interface só por criar, sem que ela seja usada de fato. Este é um erro que só peca quem é muito fanático por SOLID e não o entende totalmente, mas entre os desenvolvedores que não são novatos é comum cair nessa armadilha.

  • DIP

    Já falei acima.

Conclusão

Gosto da ideia do SOLID como dicas de coisas que você deva observar quando está desenvolvendo um software e pontos de partida para estudar mais sobre o assunto.

Nada dessas coisas garantem qualidade em software. Qualidade se dá quando a pessoa sabe o que está fazendo e é dedicada a fazê-lo corretamente.

Se o Uncle Bob faz isso e dá tudo certo pra ele, ótimo. Mas você tem certeza disto? Será que ele não acaba fazendo o mesmo trabalho que você faria não seguindo o SOLID quando tem que dar manutenção? Será que ele não tem mais facilidade só porque ele sabe fazer o certo independente de seguir o SOLID ou não? Não temos respostas para isto.

Quem provou que SOLID é bom? Devemos só acreditar que ele é? É religião?

SOLID é bom, seu uso irresponsável não é. Os benefícios existem em casos específicos quando usado corretamente. Não fique só no SOLID e não se exija usar todo ele.

Pra ser justo tem coisas muito piores, SOLID nem é tão ruim assim, mas para ser mais junto tem princípios e guias melhores que atendem o mesmo objetivo. E se ele for aplicado com um ideal menos orientado a objeto talvez funcione melhor. Talvez o maior problema dele sejam os exemplos usados e soluções oferecidas.

No computo geral o importante é saber os prós e contras dele, é bobagem dizer que ele é ruim ou bom sem um contexto.

Eu preciso arrumar tempo para fundamentar esta resposta um pouco mais. Eu tenho a base do problema, mas ainda preciso de mais pesquisas para não deixar muito no ar. Em essência coloquei em português com minhas palavras o que está em todos os links da pergunta, e mais algum conhecimento.

  • Estou ligado no Michael Feathers. Agora, DIP é inversão, não injeção, de dependência. Dizem que são relacionados. Como não arrisco dizer que entendi o DIP, não consigo ver a relação que existe entre os dois. – Piovezan 14/10/18 às 20:47
  • @Piovezan sim, foi um lapso, mudei – Maniero 15/10/18 às 14:13
  • Obrigado por trocar. Mas na resposta continua falando sobre injeção. São relacionados afinal? Desconfio que sim mas queria ter certeza. Realiza-se a injeção aplicando o princípio da inversão, seria isso? – Piovezan 15/10/18 às 15:39
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    São muito relacionados, um é o conceito, o outro é o mecanismo. – Maniero 15/10/18 às 15:42
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SOLID

Os princípios SOLID servem como métricas na orientação a objetos. Aplicar SOLID não é como um padrão de projeto, pois seus conceitos não são fórmulas, mas sim ideias que podem ser aplicadas no código. Para aplicar os princípios não existem regras rigorosas.

Solid é muito mais uma referência para conseguir identificar um código de qualidade, servindo como uma base para saber criar um código que é mais favorável a manutenção e a mudanças. Aplicar esses conceitos não é uma obrigação, tudo deve ser feito com ponderação, pois nenhuma regra deve ser seguida cegamente.

Enfim, saber esses princípios ajuda bastante a entender a orientação a objetos, mas é sempre importante ter senso critico, pois algo que é utilizado ou defendido sem ponderação perde o sentido. Acho SOLID essencial, mas não é uma fórmula mágica para desenvolver um código de qualidade.

  • Obrigado pela resposta. Acho que o que me falta para entender o DIP é um bom exemplo. Os que vejo por aí não são bons ou não ilustram adequadamente o princípio. Ou então o princípio é mais simples do que parece e não há nada de mais para ser ilustrado. – Piovezan 15/10/18 às 0:16

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