14

Tenho aprendido sobre o uso de Expressões Regulares e li algumas explicações sobre o uso do sinal ? (chamado lazy quantifier), como nesta documentação da Microsoft:

*? : Corresponde ao elemento anterior zero vezes ou mais, mas o menor número de vezes possível.

No RegExr me mostra a seguinte explicação:

inserir a descrição da imagem aqui

Se eu usar tanto a expressão ^(.*)$ quanto ^(.*?)$ ou ^(.+?)$ eu consigo o mesmo resultado:

var string = "abcdef";
var re1 = /^(.*)$/;
var re2 = /^(.*?)$/;
var re3 = /^(.+?)$/;
console.log(string.match(re1));
console.log(string.match(re2));
console.log(string.match(re3));

O que não me ficou muito claro foi "...mas o menor número de vezes possível.".

Como assim, o menor número de vezes possível?

Em que situação se deve usar e quando não usar o ? para quantificar o * ou o +, já que, como nos exemplos acima, usando ou não, o resultado é o mesmo?

12

Você obtem o mesmo resultado porque o $ força que o fim do grupo de captura seja no fim da string. Assim, o menor número possível de vezes ainda vai necessariamente até o final da string.

O ? pega o * ou + o menor número possível de vezes, em contraste com o default de regex que é ser "greedy", quer dizer, pegar o maior número possível de caracteres que se encaixam no padrão. Considere o seguinte:

var string = 'Eu quero pegar uma palavra que comece com "q" seguida por um espaço.';
var re1 = /(q.*) /;
console.log(string.match(re1)); 
// "quero pegar uma palavra que comece com \"q\" seguida por um"

Perceba que ao invés de pegar só o "quero", o grupo de captura pegou o quero, que começa com "q", e mais tudo até o último espaço encontrado. Por isso o regex é ganancioso: ele pega tudo o que consegue.

Vejamos agora a mesma coisa com o ? que tira a ganância do regex:

var string = 'Eu quero pegar uma palavra que comece com "q" seguida por um espaço.';
var re2 = /(q.*?) /;
console.log(string.match(re2));
// "quero"

Isso está mais em linha com o que queríamos. O regex pegou no grupo de captura a minha palavra que começa com "q", e parou no primeiro espaço; quer dizer, ele deu match no menor número de caracteres possível que satisfaz a expressão regular.

No seu exemplo original, o menor número possível de caracteres ainda era a string completa porque com o ^ e o $, você forçava o regex a começar no primeiro caractere da string e terminar no último. Assim, a menor string que satisfaz a expressão completa é a string toda.

  • Boa explicação, mas testando no RegExr ele está selecionando tudo que começa com "q" até o primeiro espaço: regexr.com/3r7lk – Sam 18/06/18 às 22:46
  • Ah tah, foi por causa da flag g. – Sam 18/06/18 às 22:49
  • @dvd não por causa do flag g; é porque geralmente os engines de regex disponibilizam dois resultados: o match todo, ou só o que está no grupo de captura. O espaço, no caso desses regexes, está fora do grupo de captura, então o que comentei foi o resultado dos grupos de captura. Se rodar no console do navegador, vai ver que o resultado na verdade é um array com os dois valores (com e sem espaço). – Pedro von Hertwig 18/06/18 às 23:03
  • Lá no RegExr desmarquei a flag global e só capturou o "quero" – Sam 18/06/18 às 23:05
  • @dvd engraçado. O regex101 mostra os grupos e full matches separados. – Pedro von Hertwig 18/06/18 às 23:07
4

Imagine que você tenha uma página HTML gigante numa string s e você pesquise a regex /<[^>]+>.*<\/[^>]+>/. O que você vai obter? Sim, a tag html, todo o resto do documento e o fecha html, porque os quantificadores normais são gulosos.

Agora, se você tiver a mesma string s e uma regex /<[^>]+>.*?<\/[^>]+>/, o que você vai obter? Qualquer tag que abre e feche nos primeiros trechos do documento.

$(function () {

  var s = $('#conteudo').html();
  
  alert('Original: ' + s);
  alert('Eager: ' + s.match(/<[^>]+>.*<\/[^>]+>/gm)[0]);
  alert('Lazy: ' + s.match(/<[^>]+>.*?<\/[^>]+>/gm)[0]);

});
* { font-family: Consolas; }
<script src="https://ajax.googleapis.com/ajax/libs/jquery/2.1.1/jquery.min.js"></script>
<div id='conteudo'><table><thead><tr><th>Produto</th><th>Preço</th><th>Quantidade</th></tr></thead><tbody><tr><td>Feijão</td><td>R$ 8,75</td><td>1</td></tr><tr><td>Arroz</td><td>R$ 4,99</td><td>2</td></tr></tbody><tfoot><tr><td>Total</td><td></td><td>R$ 18,73</td></tr></tfoot></table></div>

  • 1
    Pois eh, ainda estou nos primeiros passos de regex, mas já aprendi bastante coisa. Só fiquei com essa dúvida. ObG! – Sam 18/06/18 às 22:58
  • Eu acho este site bem bom: regular-expressions.info – Marcelo Uchimura 19/06/18 às 10:32
2

Complementando as outras respostas, o ? como indicador de lazyness não se limita a ser usado apenas com * e +. Ele pode ser usado com qualquer outro quantificador, como o {}, por exemplo.

let s = 'a1234567890';

// sem lazy, pega a maior quantidade possível
console.log(s.match(/a\d*/)); // a1234567890
console.log(s.match(/a\d+/)); // a1234567890
console.log(s.match(/a\d{3,7}/)); // a1234567
console.log(s.match(/a\d{3,}/)); // a1234567890

As expressões acima correspondem a uma letra a seguida de determinada quantidade de dígitos (\d seguido de um quantificador).

Nos casos acima não há o ?, então os quantificadores estão no seu modo default, que é ser "ganancioso" (greedy), ou seja, eles tentam pegar a maior quantidade possível de caracteres que satisfaça a expressão. Para * e +, não há um limite máximo (o * corresponde a zero ou mais ocorrências, e o + corresponde a uma ou mais ocorrências), então a "maior quantidade possível que satisfaz a expressão" corresponde a "todos os dígitos" (1234567890).

\d{3,7} significa "no mínimo 3, no máximo 7 dígitos", então a maior quantidade possível que satisfaz a expressão é 7, por isso o resultado é a1234567. E \d{3,} significa "no mínimo 3 dígitos, sem limite máximo", então a maior quantidade possível que satisfaz a expressão é "pegar todos os dígitos", por isso o resultado é a1234567890.


Agora se mudarmos todos esses quantificadores para o seu modo lazy:

let s = 'a1234567890';

// com lazy, pega a menor quantidade possível
console.log(s.match(/a\d*?/)); // a
console.log(s.match(/a\d+?/)); // a1
console.log(s.match(/a\d{3,7}?/)); // a123
console.log(s.match(/a\d{3,}?/)); // a123

Agora, graças ao ? logo depois, os quantificadores se tornam "preguiçosos" (lazy), e passam a pegar a menor quantidade possível de caracteres que satisfaçam a expressão.

Como * significa "zero ou mais ocorrências", a menor quantidade de dígitos que satisfaz a expressão é zero. Por isso o resultado do match é a.

Já o + significa "uma ou mais ocorrências", então a menor quantidade de dígitos que satisfaz a expressão é um. Por isso o resultado é a1.

Por fim, {3,7} significa "no mínimo 3, no máximo 7 ocorrências" e {3,} significa "no mínimo 3 ocorrências, sem limite máximo", então para ambos a menor quantidade de dígitos que satisfaz a expressão é três, por isso o resultado é a123.


Vale lembrar que o ? também é um quantificador (que significa "zero ou uma ocorrência", que é outra forma de dizer que algo é opcional), e portanto ele também pode ser greedy (ganancioso) ou lazy (preguiçoso):

let s = 'a1234567890';

// sem lazy, pega a maior quantidade possível
console.log(s.match(/a\d?/)); // a1

// com lazy, pega a menor quantidade possível
console.log(s.match(/a\d??/)); // a

No primeiro caso, \d? indica que o dígito é opcional. Mas por default, todo quantificador é ganancioso, então ele tenta pegar a maior quantidade possível de caracteres (que nesse caso é 1), por isso no primeiro caso o retorno é a1.

Já no segundo caso, o quantificador ?? é preguiçoso (o primeiro ? indica que o \d é opcional, e o segundo ? torna o quantificador lazy) e pega a menor quantidade possível de caracteres, que no caso é zero. Por isso o retorno é a.


Quando usar? Depende

É muito comum as pessoas usarem .*? sem nem parar para pensar se é isso mesmo que precisam, simplesmente porque é "mais fácil". Isso geralmente acontece porque elas primeiro tentam com .*, que gera os problemas apontados nas outras respostas: como o ponto corresponde a qualquer caractere (exceto quebras de linha, a menos que se configure isso), ele pode acabar pegando mais caracteres do que devia, caso a regex ache necessário. E aí acabam mudando para lazy e "pronto".

Usando o exemplo da resposta do Pedro:

let string = 'Eu quero pegar uma palavra que comece com "q" seguida por um espaço.';
console.log(string.match(/(q.*) /)[1]); // quero pegar uma palavra que comece com "q" seguida por um
console.log(string.match(/(q.*?) /)[1]); // quero

O objetivo era pegar uma palavra que começa com "q", seguido por um espaço. Mas como o * é ganancioso, por padrão ele tenta pegar o maior número possível de caracteres. E como o ponto corresponde a qualquer caractere (inclusive o espaço), ele acaba pegando espaços a mais. Para evitar esse problema, usou-se o quantificador lazy, assim a regex não avança mais do que "deveria" e só pega até o primeiro espaço.

Mas nesse caso você não precisaria usar o ponto, e nem o quantificador lazy. Se você quer parar no primeiro espaço que tiver depois do "q", é melhor ser mais específico e dizer exatamente o que você quer. Nesse caso, você não quer "qualquer coisa", e sim "qualquer coisa que não seja um espaço". Sendo assim, a regex poderia ser:

let string = 'Eu quero pegar uma palavra que comece com "q" seguida por um espaço.';
console.log(string.match(/(q[^ ]*) /)[1]); // quero

Eu usei a classe de caracteres negados [^ ] (qualquer coisa que não seja espaço) - repare que há um espaço antes do ]. Sendo assim, o quantificador nem precisa ser lazy, pois o [^ ]* já me garante que a regex só vai avançar até encontrar um espaço. Isso deixa não só a regex mais clara quanto à sua intenção, mas também mais eficiente: basta comparar aqui e aqui a quantidade de passos que cada uma executa e ver que a opção com [^ ] precisa de menos passos que .*?.

Isso acontece porque, embora o quantificador lazy .*? funcione, ele cobra o seu preço. Basicamente, depois de encontrar o primeiro q (na palavra "quero"), o .*? verifica se logo depois tem um espaço (ele é preguiçoso, então primeiro ele tenta com zero caracteres depois do q). Mas como logo depois não tem um espaço, a regex volta e o .*? encontra o u, e então verifica se o próximo caractere é um espaço. Como não é, ela volta e o .*? consome a letra e, e avança para ver se tem um espaço depois. Como não tem, ela volta e pega o r, e assim por diante, até encontrar o espaço. Todo esse vai e volta é chamado de backtracking, e é um processo custoso, dependendo da regex e das strings que ela está verificando. O ponto é que a regex sempre vai testar todas as possibilidades, até encontrar um match (ou até perceber que não há nenhum). E usando o ponto, as possibilidades aumentam ainda mais, já que ele corresponde a qualquer caractere.

Já usando [^ ] (ou qualquer outra expressão mais restritiva que o ponto), as coisas mudam: como o [^ ] foi usado com um quantificador greedy, o comportamento da regex é avançar de uma vez, o máximo de caracteres que puder - e no caso, ela avança até encontrar um espaço, que é justamente o que pretendíamos (e o melhor: sem o backtracking que ocorre com .*?). Ou seja, eu me aproveitei do comportamento ganancioso do quantificador para que a regex seja mais eficiente (se eu torná-lo lazy não haverá ganho algum, pois será feito backtracking, veja). Além disso, o fato de eu usar uma expressão mais específica (qualquer coisa que não seja espaço) em vez do ponto (que pode ser qualquer coisa), me garante que a regex não vai avançar mais do que devia.

Obviamente que, para strings pequenas ou regex que serão executadas poucas vezes, em situações nas quais o desempenho não é algo tão crítico, etc, a diferença não é tão grande assim, e de qualquer forma, se eficiência é um requisito importante, devem ser feitos testes para saber se a regex é de fato o gargalo. E a quantidade exata de passos executados pela regex pode variar conforme a situação, pois algumas linguagens e engines podem fazer certas otimizações dependendo da expressão e/ou das strings envolvidas (mas o backtracking causado por um quantificador lazy continua sendo um fator que piora o desempenho, independente disso).

De qualquer forma, ainda acho que é importante saber que o uso indiscriminado de .*? nem sempre é a melhor solução. Nem sempre você quer "qualquer coisa", muitas vezes você quer "qualquer coisa, desde que não seja X, Y ou Z".

Obs: ainda tem outra diferença. O ponto, por default, não considera as quebras de linha, mas [^ ] sim (veja). Se não quiser pegar as quebras de linha, pode trocar para q\S* (o atalho \S é tudo que não for espaço ou quebra de linha - veja), ou para algo mais específico como q[a-z]* (veja). Enfim, há várias opções para não precisar do quantificador lazy.


Outro caso em que o uso do quantificador lazy não é tão interessante é quando você quer pegar "tudo até o final da linha". Como o ponto, por padrão, não considera quebras de linha, eu poderia fazer:

let string = "Vou pegar tudo depois do número 1: esse é o trecho que quero pegar, até o final da linha\nEsse trecho está em outra linha e não quero";
console.log(string.match(/\d: (.*)/)[1]); // esse é o trecho que quero pegar, até o final da linha

No caso, a regex tem \d: (um número seguido de : e espaço), e depois eu tenho (.*) (zero ou mais ocorrências de qualquer coisa). Mas por default o ponto não considera as quebras de linha, então ele avança até encontrar o \n. Eu me aproveito do comportamento greedy para fazer a regex avançar até onde quero sem precisar fazer backtracking (veja aqui ela funcionando).

Mas se eu trocar a regex para \d: (.*?), ela não pega o restante da linha (pois ele vai pegar a menor quantidade de caracteres, e nesse caso é zero, conforme os primeiros exemplos acima) - veja. Neste caso eu teria que indicar que quero tudo até a quebra de linha, mudando a regex para \d: (.*?)\n, por exemplo. Mas aí o quantificador lazy fará o backtracking para verificar se já chegou ao final da linha, tornando a regex menos eficiente, veja.

Resumindo, nem sempre o quantificador lazy é a melhor solução (aliás, nem sempre ele é a solução).


Para os seus exemplos, o resultado é o mesmo porque você usou os marcadores ^ e $ (início e fim da string), então ^.*$ e ^.*?$ vão pegar "qualquer coisa do início ao fim da string", ou seja, tanto faz, pois sempre vai encontrar um match (a diferença é que .* vai dar match em strings vazias, enquanto .+ exige que haja pelo menos um caractere). Mas ainda sim há uma diferença de desempenho, veja aqui, aqui, aqui e aqui.

E sobre o uso indiscriminado de .*? e as consequências de forçar a regex a fazer muitos backtrackings, vale ler este artigo.

Sua resposta

By clicking “Publique sua resposta”, you agree to our terms of service, privacy policy and cookie policy

Esta não é a resposta que você está procurando? Pesquise outras perguntas com a tag ou faça sua própria pergunta.