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Estava curiosamente lendo uma resposta sobre como armazenar tipos heterogêneos em um array quando me deparo com o seguinte trecho da resposta:

Você terá que guardar em cada elemento do vetor o objeto e de que tipo ele é, e lidar com cada elemento de acordo com o tipo. Sem isto corre o risco de pegar um objeto como se fosse outro com uma estrutura inadequada. Este fenômeno é chamado de slicing.

Interpretei aqui que slicing seria o "corte" inadequado de informações no vetor, fazendo com que o objeto obtido através desses bytes na melhor das hipóteses não faça sentido. Minha interpretação foi algo assim:

Bytes separados por objetos reais
| b0   b1   b2 | b3   b4 | b5   b6 |
Slicing decorrente da leitura errada
| b0   b1 | b2   b3   b4 | b5   b6 |

Os dois primeiros objetos lidos diferem da leitura correta e da leitura com slicing.

Então, minhas dúvidas são:

  • Essa interpretação acima está correta?
  • O problema do slicing aparenta acontecer também em C pelos mesmos motivos; em quais linguagens* ele é mais aparente? Tem linguagens virtualmente blindadas contra esse efeito?
  • O slicing pode ocorrer dentro de um vetor de dados homogêneos? Ou ele está restrito a dados heterogêneos?

    *: não precisa ser uma lista exaustiva, bastaria definir que linguagens que seguem a característica x são sucetíveis a esse fenômeno

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    Não quis entrar em detalhes lá, a pergunta é muito pertinente aqui, vou explicar melhor o fenômeno. – Maniero 25/03/18 às 11:44
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Slicing existe em vários contextos da computação. Estou falando do slice de um objeto. Isto costuma acontecer em linguagens orientadas a objeto. Ali o exemplo foi em vetor, mas não confunda com o slicing de coleções de dados que é algo deliberado que o programador manda fazer. Estou falando de algo que ocorre inadvertidamente em objetos.

Essa interpretação acima está correta?

A ideia é essa, mas não exatamente assim, pelo menos dentro do que eu conheço. Pode até ser que isto possa ocorrer em alguma situação, mas nunca vi algo como o mostrado (pode ser desconhecimento meu).

O slicing costuma acontecer entre tipos com relação de herança.

O problema do slicing aparenta acontecer também em C pelos mesmos motivos; em quais linguagens* ele é mais aparente? Tem linguagens virtualmente blindadas contra esse efeito?

O fenômeno ocorre inadvertidamente em linguagens de tipagem fraca (não confundir com tipagem dinâmica). Claro que em linguagens de tipagem forte é possível reproduzir o fenômeno se ela permitir explicitamente que troque o tipo de um objeto sem uma conversão. Isto é raro em linguagens modernas, mesmo que compile quando faz isto deve dar um erro e não chega apresentar o slicing. Por linguagens modernas entenda como linguagens gerenciadas. De certa forma só estas linguagens podem ser consideradas completamente fortes na tipagem (mas isto é outro assunto).

C é uma linguagem de tipagem fraca e poderia ocorrer o fenômeno, porém ela não tem relação de herança. Ocorreria problemas semelhantes e até mais graves se o código quiser mesmo, mas não exatamente o slicing. O exemplo mostrado na pergunta faz algo mais grave, mas para ele ocorrer precisa algum esforço ;) O código tem que pedir para ele ocorrer.

Em C, e em certa medida em C++, dependendo do estilo de codificação, pode corromper a memória, o que é pior que o slicing, que nem ocorreria.

O slicing pode ocorrer dentro de um vetor de dados homogêneos? Ou ele está restrito a dados heterogêneos?

Realmente homogêneos não pode. A não ser por uma deficiência de implementação da linguagem, mas descarto isto.

Como ocorre o slicing.

O slicing ocorre quando você espera um objeto e vem um outro com estrutura estendida.

Por estrutura entenda o estado. O slicing não é sobre comportamentos, então se um tipo derivado não adiciona nada ao objeto base, você está livre do slicing. Alguns dirão que neste caso sequer houve uma herança de fato.

Vamos ver:

class Base
    x : int

class Derivada : Base
    y : int

b := Base()
d := Derivada() { x = 1, y = 2 }
b = d //funciona porque d é do tipo de b, nem toda linguagem deixa implicitamente
print b.x //sem problemas, dá 1
//print b.y //daria erro porque em b não tem y, então não temos problema aqui
d = b
print d.x //beleza, dá 1
print d.y //agora pode, d tem um y, mas imprime 2?

Acontece que b não tem o elemento y, ele se perde, quando transforma e coloca b no tipo derivado só o x existe, o y teria um valor default (provavelmente), aí acontece o slicing no b = d.

Em um vetor há uma atribuição assim. Se Vector<Base> é usado quando você faz v[0] = d está fazendo o mesmo que b = d, ocorre o slicing. Em cada variável de v só tem espaço para o tipo Base, ou seja, só tem espaço para um int, quando você tenta colocar um tipo que é considerado compatível ali mas ele tem mais dados, estes serão descartados, então o d que tinha dois ints perderá o segundo.

Por isso que recomenda-se evitar o uso de tipos por valor a não ser onde há ganhos claros, sejam obviamente valores básicos imutáveis ou você precise muito de uma otimização e saiba muito o que está fazendo e entenda todos os fenômenos que podem ocorrer, entre eles o "esquartejamento".

Quando você usa um tipo por referência ou lida com um tipo por valor como referência o problema não ocorre por causa da indireção.

Nestes tipos o valor básico armazenado é um ponteiro sempre do mesmo tamanho, nunca ocorre o slicing. O dado realmente está em outro lugar e pode ter tamanhos diferentes. Claro que em linguagens de tipagem completamente forte todos serão do mesmo tipo base (sem covariância pode vazar).

Lembrando que existem várias formas de atribuição (cópia), uma delas é passar um dado para uma função. Quando é passado por referência a cópia é só do ponteiro e não do objeto em si, então podemos dizer que ocorre uma mudança e não uma cópia. Só a cópia do objeto pode retalhá-lo.

Outra forma de resolver isto é criar um construtor de cópia que lide com a questão de forma adequada, mas nem sempre compensa.

Note que este caso que exemplifiquei não é um problema real porque o compilador não deixa. Mesmo em C++ na forma como se costuma fazer não tem como dar errado. Agora o que pode dar errado e você perceber tarde demais:

struct A {
    A(int a) : a_var(a) {}
    int a_var;
};

struct B : public A {
    B(int a, int b) : A(a), b_var(b) {}
    int b_var;
};

B &getB() { //importante o retorno por referência
    static B b(1, 2);
    return b;
}

int main() {
    A a(3);
    a = getB();
    // a.a_var == 1, b.b_var não copiado para a
    B b2(3, 4);
    A &a2 = b2;
    a2 = getB();
    cout << b2.a_var << b2.b_var; //dá 1 e 4, misturou os objetos
}

Wikipedia.

A maioria das linguagens não sofre com isto. C++ é alto e baixo de nível demais, essa combinação causa o problema. O slicing ocorre em diversas linguagens, mas o compilador identifica e proíbe.

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