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Até o Java 7, tínhamos as classes Date e Calendar para representar datas. Para convertê-las para Strings, a forma mais fácil era com o uso do SimpleDateFormat.

O Java 8 introduziu uma nova API de datas. Como é que ela pode ser usada? Como faço para integrar ela com as Date e Calendar que são usadas em código já existente e legados? Qual é a relação dele com o Joda-Time?

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Os problemas da API legada

As classes java.util.Date e java.util.Calendar, bem como as subclasses java.util.GregorianCalendar, java.sql.Date, java.sql.Time e java.sql.Timestamp, são notórias por serem mal-arquitetadas e por serem classes difíceis de se utilizar devido ao fato de a API delas ter sido mal-elaborada. Elas funcionam corretamente se forem usadas com o devido cuidado, mas o código delas acumula várias más práticas de programação e problemas recorrentes que atrapalham a vida dos programadores em Java.

Além disso, essas classes todas são mutáveis, o que as torna inapropriadas de serem utilizadas em alguns casos. Por exemplo:

 Date a = ...;
 Date d = new Date();
 pessoa.setAtualizacao(d); // Define a data de atualização.

 // Em algum lugar bem longe do código acima:
 d.setTime(1234); // A data de atualização muda magicamente de forma misteriosa.

Um outro problema nessas classes é que elas não são thread-safe. Como essas classes são mutáveis, isso até que é esperado. Nos casos onde elas não sofram mutações enquanto estiverem sendo usadas, isso não deverá causar problemas referentes a thread-safety para a maioria dessas classes. Porém com a classe SimpleDateFormat, a situação é diferente. Compartilhar uma instância de SimpleDateFormat entre diversas threads causará resultados imprevisíveis mesmo se a instância de SimpleDateFormat não sofrer alterações/mutações externas. Isso ocorre porque durante o processo de parse ou de formatação de uma data, a classe SimpleDateFormat altera o estado interno de si mesma.

Por isso que no Java 8, novas classes foram elaboradas para substituí-las.

A nova API

Primeiramente, na nova API todas as classes são imutáveis e thread-safe. Somente isso já as torna bem mais fáceis de se utilizar. Além disso, a API delas foi bastante planejada, discutida e exercitada para ficar coerente.

As classes mais utilizadas são as seguintes:

  • LocalDate - Representa uma data sem informação de hora e nem de fuso horário.

  • LocalTime - Representa uma hora sem informação de data e nem de fuso horário.

  • OffsetTime - Representa uma hora sem informação de data, mas com um fuso horário fixo (não leva em conta horário de verão).

  • LocalDateTime - Representa uma data e hora, mas sem fuso horário.

  • ZonedDateTime - Representa uma data e hora com fuso horário que leva em conta horário de verão.

  • OffsetDateTime - Representa uma data e hora com fuso horário fixo (não leva em conta horário de verão).

  • YearMonth - Representa uma data contendo apenas um mês e um ano.

  • Year - Representa uma data correspondendo apenas a um ano.

  • Instant - Representa um ponto no tempo, com precisão de nanossegundos.

Todas elas são implementações da interface Temporal, que especifica o comportamento comum a todas elas. E observe que a API delas é bem mais fácil de se usar do que Date ou Calendar, tem um monte de métodos para se somar datas, verificar quem está antes ou depois, extrair determinados campo (dia, mês, hora, segundo, etc), converter entre um tipo e outro, etc.

Também há implementações de Temporal mais específicas para diferentes calendários. A saber: JapaneseDate, ThaiBuddhistDate, HijrahDate e MinguoDate. Eles são análogos ao LocalDate, mas em calendários específicos, e portanto não têm informação de hora ou fuso horário.

Nota-se também que todas elas tem um método estático now() que constrói o objeto da classe correspondente de acordo com a hora do sistema. Por exemplo:

LocalDate hoje = LocalDate.now();
LocalDateTime horaRelogio = LocalDateTime.now();
Instant agora = Instant.now();

Fusos horários são representados pela classe ZoneId. Uma instância que corresponde ao ZoneId da máquina local pode ser obtido com o método ZoneId.systemDefault(). Uma outra forma de obter instâncias de ZoneId é por meio do método ZoneId.of(String). Por exemplo:

ZoneId fusoHorarioDaqui = ZoneId.systemDefault();
ZoneId utc = ZoneId.of("Z");
ZoneId utcMais3 = ZoneId.of("+03:00");
ZoneId fusoDeSaoPaulo = ZoneId.of("America/Sao_Paulo");

Observe-se que alguns fusos horários são fixos, ou seja não são afetados por regras de horário de verão, enquanto que outros, tal como ZoneId.of("America/Sao_Paulo"), são afetados por horário de verão.

Conversão entre Date e as novas classes

Para converter um Date para uma instância de uma das classes do pacote java.time, podemos fazer assim:

Date d = ...;
Instant i = d.toInstant();
ZonedDateTime zdt = i.atZone(ZoneId.systemDefault());
OffsetDateTime odt = zdt.toOffsetDateTime();
LocalDateTime ldt = zdt.toLocalDateTime();
LocalTime lt = zdt.toLocalTime();
LocalDate ld = zdt.toLocalDate();

No código acima, o fuso horário usado é importante. Normalmente você irá usar o ZoneId.systemDefault() ou o ZoneId.of("Z"), dependendo do que você estiver fazendo. Em alguns casos, você pode querer usar algum outro fuso horário diferente. Se você quiser armazenar o fuso horário em alguma variável (possivelmente estática) e sempre (re)utilizar depois, não há problema (inclusive é recomendado em muitos casos).

Obviamente, há várias outras formas de se obter instâncias das classes definidas acima.

Para converter de volta para Date:

ZonedDateTime zdt = ...;
Instant i2 = zdt.toInstant();
Date.from(i2);

Parse e formatação com String

Para converter qualquer um deles para String, você usa a classe java.time.format.DateTimeFormatter. Ela é a substituta do SimpleDateFormat. Por exemplo:

DateTimeFormatter fmt = DateTimeFormatter
        .ofPattern("dd/MM/uuuu")
        .withResolverStyle(ResolverStyle.STRICT);
LocalDate ld = ...;
String formatado = ld.format(fmt);

O processo inverso é feito com os métodos estáticos parse(String, DateTimeFormatter) que cada uma dessas classes tem. Por exemplo:

DateTimeFormatter fmt = ...;
String texto = ...;
LocalDate ld = LocalDate.parse(texto, fmt);

Um detalhe a se atentar é o uso de uuuu ao invés de yyyy no método ofPattern. O motivo disto é que yyyy não funciona em caso de datas antes de Cristo. Raramente isso iria importar, mas onde isso não importa, os dois funcionam iguais, e onde isso importa, o uuuu deve ser usado. Assim sendo, não tem muito sentido em usar o yyyy em detrimento do uuuu. Mais detalhes nesta resposta (em inglês).

Um outro detalhe é o withResolverStyle(ResolverStyle) que diz o que fazer com datas mal-formadas. Há três possibilidades: STRICT, SMART e LENIENT. O STRICT não permite nada que não esteja rigorosamente no padrão. O modo LENIENT permite que ele interprete 31/06/2017 como 01/07/2017, por exemplo. O SMART tenta adivinhar qual é a melhor forma, interpretando 31/06/2017 como 30/06/2017. O padrão é o SMART, mas recomendo usar o STRICT sempre, pois ele não tolera datas mal-formadas e não tenta adivinhar o que uma data mal-formada poderia ser. Veja alguns testes acerca disso no ideone.

Conversão de Calendar

A classe legada GregorianCalendar é para todos os efeitos equivalente a nova classe ZonedDateTime. Os métodos GregorianCalendar.from(ZonedDateTime) e GregorianCalendar.toZonedDateTime() servem para fazer a conversão direta:

ZonedDateTime zdt1 = ...;
GregorianCalendar gc = GregorianCalendar.from(zdt1);
ZonedDateTime zdt2 = gc.toZonedDateTime();

Tendo então a conversão de Calendar para ZonedDateTime e vice-versa, use os métods já descritos acima caso queira obter algum dos objetos da nova API tal como LocalDate ou LocalTime.

Se o que você tiver for uma instância de Calendar ao invés de GregorianCalendar, quase sempre poderá fazer um cast para GregorianCalendar para usar o método toZonedDateTime(). Caso não queira usar o cast, é possível converter-se o Calendar para Instant:

Calendar c2 = ...;
Date d2 = c2.getTime();
Instant i2 = d2.toInstant();

Também é possível construir-se um Calendar a partir de um Instant usando o Date como intermediário:

Instant i = ...;
Date d1 = Date.from(i);
Calendar c = new GregorianCalendar();
c.setTime(d1);

Sobre o Joda-Time

Quanto ao Joda-Time, ela é uma API que foi desenvolvida por alguns anos exatamente com a intenção de substituir o Date e o Calendar. E ela conseguiu! O pacote java.time e todas as classes de lá são fortemente inspiradas no Joda-Time, embora existam algumas diferenças importantes que têm como objetivo não repetir alguns dos erros do Joda-Time.

  • +1 é muito bom ter toda essa informação sobre o pacote time num lugar só, facilita quando surgir uma duvida. Falando em duvida, não entendi muito bem o que quis dizer com "fuso horario fixo" do offsettime e offsetdatetime. – user28595 12/01/17 às 21:55
  • 1
    @diegofm Resposta editada. – Victor Stafusa 13/01/17 às 2:19
  • 1
    Ótima resposta, porém o java.time não é o "Joda-Time com nome de pacote renomeado". Apesar de ter várias classes com os mesmos nomes, na verdade há várias diferenças entre as 2 APIs, algumas inclusive conceituais, e há um bom resumo feito pelo autor em seu blog: blog.joda.org/2009/11/why-jsr-310-isn-joda-time_4941.html - destaque para o final "I took the decision that I didn't want to add an API to the JDK that had known design flaws. And the changes required weren't just minor. As a result, JSR-310 started from scratch, but with an API *'inspired by Joda-Time".* – hkotsubo 7/05/18 às 18:23
  • 1
    @hkotsubo Curioso. Na época que escrevi essa resposta, vi essa informação em algum blog que vi em algum lugar. Entretanto, seja como for, reescrevi esse último pedaço. Obrigado. – Victor Stafusa 7/05/18 às 19:46
  • 1
    De fato, na época que a JSR310 começou a ganhar mais destaque, eu também achei que as APIs seriam iguais, mas o autor aproveitou a oportunidade para melhorar e corrigir pontos que ele não achava ideais, o que na minha opinião foi ótimo. Neste artigo ele lista as principais diferenças entre as APIs: blog.joda.org/2014/11/… – hkotsubo 8/05/18 às 13:22
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+150

Complementando a resposta do Victor, seguem mais alguns pontos a se atentar quando for migrar de uma API para outra. No texto abaixo às vezes me refiro ao java.time como "API nova" (apesar de ter sido lançado em 2014) e a Date, Calendar e demais classes como "API legada" (pois é esse o termo usado no tutorial da Oracle).


Precisão

java.util.Date e java.util.Calendar possuem precisão de milissegundos (3 casas decimais na fração de segundos), enquanto as classes do pacote java.time possuem precisão de nanossegundos (9 casas decimais).

Isso significa que a conversão da API nova para a API legada implica em perda de precisão. Ex:

// Instant com 9 casas decimais (123456789 nanossegundos)
Instant instant = Instant.parse("2019-03-21T10:20:40.123456789Z");
// converte para Date (mantém apenas 3 casas decimais)
Date date = Date.from(instant);
System.out.println(date.getTime()); // 1553163640123

// ao converter de volta para Instant, as casas decimais originais são perdidas
Instant instant2 = date.toInstant();
System.out.println(instant2); // 2019-03-21T10:20:40.123Z
System.out.println(instant2.getNano()); // 123000000

Ao converter de java.time.Instant para java.util.Date, somente as 3 primeiras casas decimais são mantidas (as demais são simplesmente descartadas). Por isso, ao converter este Date de volta para Instant, ele não tem mais essas casas decimais.

Mas repare que no final, getNano() retorna 123000000. Mesmo que o Date só tenha precisão de milissegundos, internamente um Instant sempre guarda o valor em nanossegundos.

Se quiser restaurar o valor original das frações de segundo, este deve ser guardado separadamente. Para restaurá-lo, basta usar um java.time.temporal.ChronoField:

// Instant com 9 casas decimais (123456789 nanossegundos)
Instant instant = Instant.parse("2019-03-21T10:20:40.123456789Z");
// converte para Date (mantém apenas 3 casas decimais)
Date date = Date.from(instant);
// guardar o valor da fração de segundos
int nano = instant.getNano();

.....
// converter de volta para Instant e restaurar o valor dos nanossegundos
Instant instant2 = date.toInstant().with(ChronoField.NANO_OF_SECOND, nano);
System.out.println(instant2); // 2019-03-21T10:20:40.123456789Z
System.out.println(instant2.getNano()); // 123456789

Parsing com mais de 3 casas decimais

Esta limitação de 3 casas decimais também se aplica ao parsing. Por exemplo, se tentarmos fazer o parsing de uma String contendo 6 casas decimais na fração de segundos:

SimpleDateFormat sdf = new SimpleDateFormat("yyyy-MM-dd'T'HH:mm:ss.SSSSSS");
Date date = sdf.parse("2019-03-21T10:20:40.123456");
System.out.println(date); // Thu Mar 21 10:22:43 BRT 2019

Repare que na String o horário é "10:20:40", mas a saída foi "10:22:43". Isso acontece porque, segundo a documentação, a letra S corresponde aos milissegundos. Colocando 6 letras S, como fizemos, não faz com que o trecho 123456 seja interpretado como microssegundos (que é o que de fato esse valor representa). Em vez disso, o SimpleDateFormat interpreta como 123456 milissegundos, que por sua vez corresponde a "2 minutos, 3 segundos e 456 milissegundos" - e este valor é somado ao horário obtido. Por isso o resultado é 10:22:43 (se esse algoritmo faz sentido ou não, é outra história, mas o fato é que SimpleDateFormat faz muitas outras coisas estranhas além dessa).

No caso acima, ao imprimir o Date, internamente é chamado o seu método toString(), que omite os milissegundos. Então vamos usar o mesmo SimpleDateFormat acima para tentar imprimir os milissegundos:

SimpleDateFormat sdf = new SimpleDateFormat("yyyy-MM-dd'T'HH:mm:ss.SSSSSS");
Date date = sdf.parse("2019-03-21T10:20:40.123456");
System.out.println(sdf.format(date)); // 2019-03-21T10:22:43.000456

Repare que o resultado tem .000456 (ou seja, 456 microssegundos), sendo que na verdade 456 é o valor dos milissegundos (já que Date não tem precisão de microssegundos), então deveria ser mostrado como .456 (ou 456000, já que o formato indica 6 dígitos). Mas ao colocar 6 letras S, a documentação diz que valores numéricos são preenchidos com zeros à esquerda caso o valor tenha menos dígitos do que a quantidade de letras. Por isso que 456 foi mostrado como 000456.

Ou seja, se estiver lidando com mais de 3 casas decimais na fração de segundos, Date, Calendar e SimpleDateFormat simplesmente não funcionam. Uma maneira de resolver é simplesmente tratar as casas decimais separadamente, por exemplo:

String s = "2019-03-21T10:20:40.123456";
String[] partes = s.split("\\.");
SimpleDateFormat sdf = new SimpleDateFormat("yyyy-MM-dd'T'HH:mm:ss");
Date date = sdf.parse(partes[0]);
// completar com zeros à direita, para sempre ter o valor em nanossegundos
int nanossegundos = Integer.parseInt(String.format("%-9s", partes[1]).replaceAll(" ", "0"));
System.out.println(sdf.format(date)); // 2019-03-21T10:20:40
System.out.println(nanossegundos); // 123456000

// o Date foi gerado sem os milissegundos, já que o parsing foi feito sem eles
// se quiser ser preciso mesmo, devemos somar os milissegundos ao Date
date.setTime(date.getTime() + (nanossegundos / 1000000));

Já na API java.time é possível fazer o parsing das 6 casas decimais sem problemas:

DateTimeFormatter parser = DateTimeFormatter.ofPattern("uuuu-MM-dd'T'HH:mm:ss.SSSSSS");
LocalDateTime dt = LocalDateTime.parse("2019-03-21T10:20:40.123456", parser);
System.out.println(dt); // 2019-03-21T10:20:40.123456

Agora sim as frações de segundo foram interpretadas corretamente. Isso acontece porque na nova API a letra S significa "frações de segundo" (e não mais milissegundos), podendo interpretar até 9 casas decimais. Isso nos leva a outro ponto importante.


Formatação e Parsing

Como já vimos acima, o parâmetro que passamos para SimpleDateFormat (yyyy-MM-dd'T'HH:mm:ss.SSSSSS) não funciona exatamente da mesma maneira que no java.time:

  • o S tem um significado e funcionamento ligeiramente diferente: na API legada dá resultados errados quando tem mais que 3 casas decimais
  • no java.time usei u para o ano, em vez de y (e a resposta do Victor já explica muito bem a diferença)

Esse é um ponto importante: só porque um formato funcionava com SimpleDateFormat, não quer dizer que vai funcionar do mesmo jeito com DateTimeFormatter. A letra u, por exemplo, significa "ano" no java.time, mas na API legada significa "dia da semana". E existem letras novas que foram adicionadas no Java 8, como o Q para o trimestre, e para o "dia da semana localizado" (ou seja, baseado no Locale), entre outras. Sempre consulte a documentação para mais detalhes (e mesmo na API legada há algumas diferenças, como a letra X, que só foi adicionada no Java 7 - veja que na documentação do Java 6 ela não existe).

Além disso, há mais opções para formatação e parsing. Por exemplo, o formato que estamos usando nos exemplos acima (que é definido pela norma ISO 8601) pode ser interpretado diretamente:

LocalDateTime dt = LocalDateTime.parse("2019-03-21T10:20:40.123456");

Internamente este método usa a constante predefinida DateTimeFormatter.ISO_LOCAL_DATE_TIME. A diferença para o exemplo anterior é que usando .SSSSSS, ele só consegue interpretar Strings que tenham exatamente 6 casas decimais. Já o ISO_LOCAL_DATE_TIME é mais flexível, pois permite de zero a 9 casas decimais.

Podemos simular este comportamento (ter um campo com uma quantidade variável de dígitos), usando um java.time.format.DateTimeFormatterBuilder:

DateTimeFormatter parser = new DateTimeFormatterBuilder()
    .appendPattern("uuuu-MM-dd'T'HH:mm:ss")
    .optionalStart() // frações de segundo opcionais
    .appendFraction(ChronoField.NANO_OF_SECOND, 0, 9, true) // de 0 a 9 dígitos
    .toFormatter();

LocalDateTime dt = LocalDateTime.parse("2019-03-21T10:20:40", parser);
System.out.println(dt); // 2019-03-21T10:20:40

LocalDate date = LocalDate.parse("2019-03-21T10:20:40.123456789", parser);
System.out.println(date); // 2019-03-21

Repare no exemplo acima o trecho final com LocalDate. Esta classe só possui o dia, mês e ano, mas para obtê-la a partir de uma String que contém data e hora, eu tive que usar o mesmo parser. Isso acontece porque o parser deve ser capaz de interpretar a String inteira, mesmo que depois alguns campos não sejam usados. Ou seja, o parser interpreta a String e o LocalDate pega só o que precisa (dia, mês e ano), descartando o restante.

Veja também que o parser é capaz de interpretar tanto Strings sem fração de segundos quanto com 9 casas decimais. DateTimeFormatterBuilder possui muitas opções que não são possíveis de se fazer com SimpleDateFormat, por isso a migração de uma para outra não é tão direta (não basta copiar e colar o mesmo formato e achar que tudo funcionará da mesma maneira, e a nova API ainda te dá mais opções e alternativas melhores para obter os mesmos resultados).


Modos de parsing

Detalhando um pouco mais os modos de parsing (que a resposta do Victor menciona), no java.time existem três:

O modo LENIENT permite datas inválidas e faz ajustes automáticos. Por exemplo, 31/06/2017 é ajustado para 01/07/2017. Além disso, este modo aceita valores fora dos limites definidos para cada campo, como o dia 32, mês 15, etc. Por exemplo, 32/15/2017 é ajustado para 01/04/2018.

O modo SMART também faz alguns ajustes quando a data é inválida, então 31/06/2017 é interpretado como 30/06/2017. A diferença para LENIENT é que este modo não aceita valores fora dos limites dos campos (mês 15, dia 32, etc), então 32/15/2017 dá erro (lança um DateTimeParseException). É o modo default quando você cria um DateTimeFormatter.

O modo STRICT é o mais restrito: não aceita valores fora dos limites e nem faz ajustes quando a data é inválida, portanto 31/06/2017 e 32/15/2017 dão erro (lançam um DateTimeParseException).

SimpleDateFormat só possui dois modos: leniente e não-leniente (que pode ser configurado usando-se o método setLenient). O default é ser leniente, o que causa os comportamentos "estranhos" já citados (como a bagunça que é feita no parsing de 6 casas decimais nas frações de segundo, que poderia ser evitado setando-o para não-leniente).


Datas e timezones

Um Date, apesar do nome, não representa uma data - no sentido de representar apenas um único valor de dia, mês, ano, hora, minuto e segundo. Na verdade esta classe representa um instante, um ponto na linha do tempo. O único valor que ela guarda é um long contendo o timestamp: a quantidade de milissegundos desde o Unix Epoch (que por sua vez é "1 de janeiro de 1970, à meia noite em UTC").

O detalhe do timestamp é que ele é o mesmo no mundo todo, mas a data e hora correspondente pode mudar de acordo com o lugar em que você está. Por exemplo, o timestamp 1553163640000 corresponde a:

  • 21 de março de 2019 às 07:20:40 em São Paulo
  • 21 de março de 2019 às 11:20:40 em Berlim
  • 22 de março de 2019 às 00:20:40 em Samoa

Em todos estes lugares, o timestamp é o mesmo: qualquer computador, em qualquer parte do mundo, que rodasse System.currentTimeMillis() (ou qualquer outro código que obtém o timestamp atual) naquele exato instante obteria o mesmo resultado (1553163640000). Porém, a data e hora correspondente a este timestamp são diferentes, conforme o timezone sendo utilizado.

Date representa o timestamp, não as datas e horas correspondentes a um timezone. O problema é que quando você imprime um Date, ele usa o timezone default que está setado na JVM para saber qual data e hora exibir:

// Date correspondente ao timestamp 1553163640000
Date date = new Date(1553163640000L);
TimeZone.setDefault(TimeZone.getTimeZone("America/Sao_Paulo"));
System.out.println(date.getTime() + " - " + date);
TimeZone.setDefault(TimeZone.getTimeZone("Europe/Berlin"));
System.out.println(date.getTime() + " - " + date);
TimeZone.setDefault(TimeZone.getTimeZone("Pacific/Samoa"));
System.out.println(date.getTime() + " - " + date);

Eu uso TimeZone.setDefault para mudar o timezone default da JVM, e em seguida uso getTime() para mostrar o valor do timestamp e também imprimo o próprio Date. A saída é:

1553163640000 - Thu Mar 21 07:20:40 BRT 2019
1553163640000 - Thu Mar 21 11:20:40 CET 2019
1553163640000 - Wed Mar 20 23:20:40 SST 2019

Repare que o valor do timestamp não mudou, mas os valores de data e hora foram ajustados para o timezone default que está setado no momento. Mas não se engane: estes valores de data, hora e timezone são apenas uma representação da data, mas o Date em si não possui esses valores (o único valor que ele possui é o timestamp). Outra concepção errada é achar que o Date "está em um timezone", mas ele não tem nenhuma informação sobre isso. Quando a data é impressa, o timezone default é usado somente para converter o timestamp para uma data e hora. Mas o Date em si não está naquele timezone.

Dito isso, é preciso atenção para converter Date de/para o java.time. A única conversão direta que não envolve timezones é entre Date e Instant, já que ambos representam o mesmo conceito: as duas classes só possuem o valor do timestamp (a diferença, claro, é a precisão, já explicada acima).

Já a conversão para as demais classes sempre exigirá um timezone. É claro que você pode usar o timezone default se quiser:

// Date correspondente ao timestamp 1553163640000
Date date = new Date(1553163640000L);
// usar timezone default
ZonedDateTime zdt = date.toInstant().atZone(ZoneId.systemDefault());
// converte para LocalDate
LocalDate dt = zdt.toLocalDate();

Mas é importante lembrar que qualquer aplicação pode rodar TimeZone.setDefault e mudar o timezone default, afetando todas as aplicações que estiverem rodando na mesma JVM. Se quiser usar um timezone específico, seja explícito na conversão:

// usar timezone específico
ZonedDateTime zdt = date.toInstant().atZone(ZoneId.of("America/Sao_Paulo"));

Você pode obter a lista de timezones disponíveis usando o método getAvailableZoneIds(). A lista pode variar porque essa informação fica embutida na JVM, mas ela pode ser atualizada sem precisar mudar a versão do Java. A atualização é importante pois a IANA (órgão responsável por manter o banco de informações de timezones que o Java e muitas outras linguagens, sistemas e aplicações usam) sempre está lançando novas versões. Isso acontece porque as regras dos fusos horários são definidas por governos e mudam o tempo todo.

Muitas linguagens e APIs possuem métodos/funções para converter uma data (somente dia, mês e ano) para um timestamp e vice-versa, mas no fundo elas estão apenas usando algum horário e timezone arbitrários (geralmente usam "meia-noite" no timezone default da sua respectiva configuração) e "escondendo esta complexidade" de você (algumas até permitem que se mude o timezone, mas nem sempre é algo trivial, enquanto outras nem permitem tal alteração).

O java.time, por sua vez, é mais explícito e exige que você sempre indique algum timezone. Por um lado pode parecer uma "burocracia" desnecessária, mas por outro lado permite que você use timezones diferentes, garantindo mais flexibilidade, controle e resultados mais corretos. Esconder esta complexidade tornaria a API mais "simples", por outro lado passaria a ideia errada (que muitas APIs passam) de que uma data (somente dia, mês e ano) pode ser "magicamente" convertida para um timestamp (sendo que, sem saber o horário e o timezone, tal conversão não é possível).


Um detalhe importante é que a classe TimeZone não valida o nome do timezone:

System.out.println(TimeZone.getTimeZone("nome que não existe"));

Quando o nome não existe, é retornado uma instância que corresponde a UTC:

sun.util.calendar.ZoneInfo[id="GMT",offset=0,dstSavings=0,useDaylight=false,transitions=0,lastRule=null]

Repare que o offset é zero e não há horário de verão (dstSavings=0). Ou seja, é o mesmo que UTC. Por isso, erros de digitação podem passar batidos e só será percebido quando começar a aparecer datas erradas. Já ZoneId não aceita nomes que não existem:

ZoneId.of("nome que não existe");

Este código lança uma exceção:

java.time.DateTimeException: Invalid ID for region-based ZoneId, invalid format: nome que não existe

Outro detalhe é que TimeZone aceita abreviações:

System.out.println(TimeZone.getTimeZone("IST"));

O problema é que abreviações são ambíguas e não representam timezones de fato (veja mais detalhes na wiki da tag timezone, na seção "Abreviações"). "IST", por exemplo, é usada na Índia, Irlanda e Israel, então qual desses é retornado?

sun.util.calendar.ZoneInfo[id="IST",offset=19800000,dstSavings=0,useDaylight=false,transitions=7,lastRule=null]

Nesse caso o offset é 19800000 milissegundos, que corresponde a 5 horas e meia. Portanto, corresponde ao timezone da Índia (pois atualmente eles usam o offset +05:30).

ZoneId, por sua vez, não aceita abreviações, então ZoneId.of("IST") lança um java.time.zone.ZoneRulesException: Unknown time-zone ID: IST.

Esses detalhes são importantes na hora de migrar de uma API para outra, pois não basta passar os mesmos nomes/abreviações como parâmetro. Caso o código use abreviações, você terá que tomar uma decisão quanto às mesmas e usar um nome de timezone específico (Asia/Kolkata para Índia, Asia/Jerusalem para Israel ou Europe/Dublin para Irlanda, por exemplo).


java.sql

As classes do pacote java.sql (Date, Time e Timestamp) herdam de java.util.Date, e por isso também possuem sua principal característica: não representam um único valor de data e hora, e sim um timestamp. Por isso elas também são afetadas pelo timezone default da JVM:

TimeZone.setDefault(TimeZone.getTimeZone("America/Sao_Paulo"));
LocalDate date = LocalDate.of(2018, 1, 1); // 1 de janeiro de 2018
java.sql.Date sqlDate = java.sql.Date.valueOf(date);
System.out.println("LocalDate=" + date + ", sqlDate=" + sqlDate);

// mudar o timezone default
TimeZone.setDefault(TimeZone.getTimeZone("America/Los_Angeles"));
System.out.println("LocalDate=" + date + ", sqlDate=" + sqlDate);

A saída é:

LocalDate=2018-01-01, sqlDate=2018-01-01
LocalDate=2018-01-01, sqlDate=2017-12-31

Repare que depois que mudei o timezone default o valor do sqlDate aparentemente mudou.

Isso acontece porque java.sql.Date.valueOf pega o dia, mês e ano do LocalDate, junta com "meia-noite no timezone default da JVM" e obtém o timestamp correspondente. No exemplo acima, o timezone default é America/Sao_Paulo, então o timestamp (obtido com sqlDate.getTime()) é 1514772000000, que de fato corresponde a meia-noite do dia 01/01/2018 em São Paulo. Só que esse mesmo timestamp corresponde a 31/12/2018 às 18h em Los Angeles. Por isso que ao mudar o timezone default para America/Los_Angeles o sqlDate é mostrado com o valor "errado".

É o mesmo que ocorre com java.util.Date: o valor interno do timestamp não muda, mas ao imprimir a data, o método toString() usa o timezone default para saber quais os valores de data/hora serão mostrados.

As classes java.sql.Time e java.sql.Timestamp também sofrem desses mesmos problemas, pois ambas são subclasses de java.util.Date.


O método valueOf também é afetado pelo timezone default:

TimeZone.setDefault(TimeZone.getTimeZone("America/Sao_Paulo"));
LocalDate date = LocalDate.of(2018, 1, 1); // 1 de janeiro de 2018
java.sql.Date sqlDate = java.sql.Date.valueOf(date);
System.out.println("LocalDate=" + date + ", sqlDate=" + sqlDate);
System.out.println(sqlDate.getTime());

TimeZone.setDefault(TimeZone.getTimeZone("America/Los_Angeles"));
sqlDate = java.sql.Date.valueOf(date); // recriar o sqlDate, com o mesmo LocalDate
System.out.println("LocalDate=" + date + ", sqlDate=" + sqlDate);
System.out.println(sqlDate.getTime());

Repare que agora estou recriando o sqlDate com valueOf, com um timezone default diferente. Agora a saída é:

LocalDate=2018-01-01, sqlDate=2018-01-01
1514772000000
LocalDate=2018-01-01, sqlDate=2018-01-01
1514793600000

A data agora parece "correta", mas repare que o timestamp criado foi diferente. Isso acontece porque o método valueOf sempre usa meia-noite no timezone default que está setado no momento em que ele é chamado. Se qualquer outra aplicação rodando na mesma JVM chamar TimeZone.setDefault, ou se alguém desconfigurar o fuso horário da JVM ou do servidor, este código será afetado.

Mas veja que o LocalDate sempre mantém o mesmo valor, pois esta classe possui apenas os valores numéricos do dia, mês e ano, sem qualquer informação sobre horários ou timezones. Por isso, seu valor permanece inalterado, independente de qual for o timezone default.


Caso o banco de dados que você está usando tenha um driver compatível com o JDBC 4.2, é possível trabalhar diretamente com as classes do java.time, usando os métodos setObject da classe java.sql.PreparedStatement e getObject da classe java.sql.ResultSet. Um exemplo com Instant seria:

Instant instant = ...
PreparedStatement ps = ...
// seta o java.time.Instant
ps.setObject(1, instant);

// obter o Instant do banco
ResultSet rs = ...
Instant instant = rs.getObject(1, Instant.class);
// converter o instant para um timezone
ZonedDateTime zdt = instant.atZone(ZoneId.of("America/Sao_Paulo"));
...

Só lembrando que nem todos os bancos de dados suportam todos os tipos do java.time. Consulte a documentação e veja quais classes são mapeadas para quais tipos no banco de dados.


Alternativas para Java < 8

Para o Java 6 e 7 existe o ThreeTen Backport, um excelente backport do java.time, criado por Stephen Colebourne (o mesmo criador da API java.time, inclusive).

A maioria das funcionalidades do Java 8 está presente, com algumas diferenças:

  • em vez de estarem no pacote java.time, as classes ficam no pacote org.threeten.bp
  • métodos de conversão como Date.toInstant() e Date.from(Instant) só existem no Java >= 8, mas o backport possui a classe org.threeten.bp.DateTimeUtils para fazer essas conversões. Exemplos:

    // Java >= 8, java.util.Date de/para java.time.Instant
    Date date = new Date();
    Instant instant = date.toInstant();
    date = Date.from(instant);
    
    // Java 6 e 7 (ThreeTen Backport), java.util.Date de/para org.threeten.bp.Instant 
    Date date = new Date();
    Instant instant = DateTimeUtils.toInstant(date);
    date = DateTimeUtils.toDate(instant);
    

A classe DateTimeUtils também possui métodos de conversão entre java.sql.Date e java.time.LocalDate, java.util.TimeZone para java.time.ZoneId, etc. Basicamente, existe um equivalente para cada método de conversão que foi adicionado no Java 8. Consulte a documentação para mais detalhes.

Outra diferença é que no Java 8 pode-se usar a sintaxe de method reference, enquanto no backport foram criadas constantes que simulam este comportamento (já que o method reference não existe no Java <= 7):

// Java >= 8, usando method reference (LocalDate::from)
DateTimeFormatter parser = DateTimeFormatter.ofPattern("dd/MM/uuuu");
LocalDate date = parser.parse("20/10/2019", LocalDate::from);

// Java 6 e 7 (ThreeTen Backport), usando LocalDate.FROM para simular o method reference LocalDate::from
DateTimeFormatter parser = DateTimeFormatter.ofPattern("dd/MM/uuuu");
LocalDate date = parser.parse("20/10/2019", LocalDate.FROM);

Para Android, o java.time só está disponível a partir da API level 26 (necessário minSdkVersion>=26, não basta ter compileSdkVersion>=26), mas é possível usar o ThreeTen Backport, seguindo as configurações descritas neste link.


E para Java 5, existe o "antecessor do java.time" (também criado por Stephen Colebourne): o Joda-Time. Apesar de ser um projeto encerrado (em seu próprio site há um aviso sobre isso), se você ainda está preso ao Java 5 e quiser usar algo melhor do que Date e Calendar, é uma boa alternativa.

O Joda-Time não é 100% idêntico ao java.time, mas muitos dos seus conceitos e ideias foram aproveitados no Java 8 (inclusive algumas classes e métodos possuem os mesmos nomes). As principais semelhanças e diferenças entre as APIs são explicadas aqui e aqui.


Isso é apenas um resumo, pois cobrir a API inteira ficaria extenso demais e o foco aqui foi na pergunta ("Como migrar para a nova API"). Você pode ver mais informações sobre a API no tutorial da Oracle.

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